23

set

2020

Acumulando anos de trabalho sobre a Fazenda São Nicolau, pesquisadora publica em revista portuguesa novo artigo científico sobre a dispersão de sementes por mamíferos de médio e grande porte

Por forest
Anta (Tapirus terrestris) fotografada durante saída de campo na Fazenda São Nicolau (Foto: Gustavo Canale)

Anta (Tapirus terrestris) fotografada durante saída de campo na Fazenda São Nicolau (Foto: Gustavo Canale)

Angele Tatiane Martins-Oliveira, doutoranda em Ecologia e Conservação pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), recebeu o aceite da Revista de Ciências Agrárias neste ano, 2020. A resposta positiva do periódico português é reflexo da trajetória dessa pesquisadora que iniciou seu contato com a Fazenda São Nicolau em 2011. O paper intitulado “Estrutura e síndromes de dispersão da vegetação arbórea em floresta nativa e agrofloresta, na Amazônia Meridional” deverá ser publicado em breve e é mais um na carreira científica que compreende artigos em revistas nacionais e internacionais, como a Mammalian Biology e a Scientific Eletronic Archives.

A nova publicação enfatiza a necessidade de conservação das espécies de mamíferos de médio e grande porte que contribuem para o meio ambiente com seus comportamentos corriqueiros, como a dispersão de sementes dos frutos consumidos. Angele comparou a eficiência desse processo, conhecido como zoocoria, e aquele resultante da dispersão pelo vento, chamado de anemocoria.

O tema é correlato com a dissertação da pesquisadora, defendida em 2014 no Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais da UNEMAT. O título do estudo, que contou com trabalhos de campo na São Nicolau é “Uso de sistema agroflorestal de teca (Tectona grandis L.f) por vertebrados terrestres de médio e grande porte, na Amazônia Meridional de Mato Grosso”. Acesse aqui a dissertação e outras publicações de Angele.

 

 A pesquisadora participou de diferentes atividades de monitoramento e observação no Arco do Desmatamento (Foto: Gustavo Canale)

A pesquisadora participou de diferentes atividades de monitoramento e observação no Arco do Desmatamento (Foto: Gustavo Canale)

 

Porém o contato com a Fazenda se iniciou bem antes, quando Angele se interessava por seguir carreira acadêmica, mas ainda não havia ingressado no mestrado. Em 2011, ela foi convidada pelo Prof. Dr. Dalci Oliveira para participar da equipe responsável pelo levantamento das aves na região, por meio do monitoramento dos módulos do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio). Essas coletas são apresentadas no livro intitulado “Descobrindo a Amazônia Meridional: Biodiversidade da Fazenda São Nicolau”.

Em 2013, Angele entra no mestrado de Ciências Ambientais pela UNEMAT, campus de Cáceres, e inicia o seu trabalho com o seu orientador, o Prof. Dr. Gustavo Canale, pesquisador que estuda a ecologia da paisagem e o comportamento da fauna. Inicialmente a ideia era investigar as aves, porém o orientador fez o convite, aceito pela pesquisadora, de focar nos vertebrados terrestres de médio e grande porte. A partir de então, foi o momento de um segundo contato com a Fazenda São Nicolau e o começo do novo trabalho de campo.

Contando com a parceria entre a ONF Brasil e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), orientador e pesquisadora viajaram para a São Nicolau e conversaram sobre o método científico a ser utilizado para elaborar a amostragem do grupo de interesse. A opção foi pela metodologia de transecção linear, quando é realizado um censo em trilhas previamente definidas para realizar a observação dos vertebrados de médio e grande porte.

“Tal oportunidade se engajou com as observações que eu já fazia sobre a importância em expandir o conhecimento sobre a biodiversidade do Arco do Desmatamento, pois sabemos que a região foi e ainda é bastante impactada devido ao desenvolvimento e expansão da agricultura e pecuária, consequentemente essas atividades utilizam grandes áreas e mudam a forma de vida da biodiversidade”, explicou Angele.

 

Orientador e pesquisadora escolheram a metodologia de observação de mamíferos a partir de trilhas pré-definidas. Registro de macaco-aranha-da-cara-preta (Ateles chamek) (Foto: Gustavo Canale)

Orientador e pesquisadora escolheram a metodologia de observação de mamíferos a partir de trilhas pré-definidas. Registro de macaco-aranha-da-cara-preta (Ateles chamek) (Foto: Gustavo Canale)

Durante o trabalho de campo, uma das surpresas de Angele foi seu primeiro registro direto de onça-parda. Estava junto com um dos guias da Fazenda, o Valdemar da Silva Neto (Neto). Os dois pularam de alegria com o avistamento. A pesquisadora também lembra com carinho dos outros guias de campoRoberto Stofel e Francisco de Assis Nunes (Quim) e de todos os colaboradores locais, em especial Alaíde Xavier de Souza de Araújo e Gilberto Alves de Araújo.

Outra grande ajuda veio dos alunos do professor Juliano de Paula Santos da UFMT, campus Sinop. Durante o desenvolvimento do seu projeto de pesquisa nas Áreas de Preservação Permanente (APP), ele realizou uma excursão com graduandos do Curso de Engenharia Florestal, Zootecnia e Medicina Veterinária. Na ocasião, quatro de seus alunos: Rosane Wandscheer, Aldo Rocha, Vinícius Baumann Santos e Bruno dos Santos Carvalho, compuseram a equipe que contribuiu no levantamento da composição florística das 12 trilhas onde Angele fez o levantamento e monitoramento da fauna.

Além do apoio e das boas lembranças dos professores Gustavo e Juliano, a pesquisadora relembra da triste notícia do falecimento do seu avô, ocorrido enquanto Angele estava fazendo a coleta de dados na São Nicolau.

“Entre os motivos que me levaram a escolher a biologia e a área da conservação, certamente está a minha ligação com meu avô e ao legado de conhecimento que recebi dele, principalmente honestidade e respeito com o meio ambiente”, rememora.

Ao finalizar a dissertação, a pesquisadora concluiu que as espécies de primatas e ungulados (mamíferos com cascos) registradas nas diferentes áreas da fazenda São Nicolau, compreendendo a agrofloresta e a mata nativa utilizam esses ambientes de maneira alternadas e diferentes. Ou seja, espécies que possivelmente competiriam por recursos naturais, buscam alimentos em momentos distintos e nem todas as espécies utilizam as mesmas áreas.

Em especial, Angele identificou que os Sistemas Agroflorestais (SAFs) quando aplicados como métodos de restauração florestal em áreas degradadas são considerados uma boa alternativa, principalmente quando associados a áreas de florestas nativas adjacentes. Esses sistemas impactam positivamente populações de várias espécies de mamíferos de médio e grande porte, pois os animais encontram aí áreas acessíveis para manutenção de suas atividades vitais. Ao mesmo tempo, essa fauna contribui com o ambiente do SAF dispersando sementes dos frutos consumidos.

De forma resumida, os Sistemas Agroflorestais podem atender aos três pilares da sustentabilidade: economicamente viável, socialmente justo e ecologicamente sustentável. Economicamente viável se refere à possibilidade de gerar renda por meio de plantios que podem ser manejados e comercializados. Nessa direção, os SAFs agregam condições favoráveis para as populações dependentes desses ambientes, atendendo ao pilar do socialmente justo. Por fim, essas áreas podem oferecer recursos alimentares que contribuem com as demandas vitais exigidas pela fauna, atendendo ao pilar de ecologicamente sustentável.

Contudo, apesar dos SAFs contribuírem com a fauna de mamíferos de médio e grande, ele não pode ser considerado uma alternativa para todas as espécies da região. Afinal, algumas espécies não foram registradas (ou a sua observação foi muito rara) no Sistema Agroflorestal durante o trabalho de campo. Além disso, devemos levar em consideração a especialidade de algumas espécies para ambientes florestais, algumas espécies classificadas nas listas vermelhas nacional e global em categorias de ameaçadas, como o macaco-aranha-da-cara-preta (Ateles chamek) e o macaco-barrigudo (Lagothrix lagotricha), não foram avistados na SAF da São Nicolau, onde os estratos do dossel são mais desconectados.

Ao relembrar a pesquisa do mestrado, Angele demonstra grande apreço pela equipe da Fazenda. “São pessoas que me ensinaram muito. Além de trabalharem respeitosamente, também se tornaram amigos diante de nossas partilhas. Tenho imenso carinho pelas pessoas com quem pude conhecer e fazer amizades. Gratidão, à ONF, UNEMAT, UFMT, Professores, colaboradores e, em especial a nossa exuberante Amazônia”.

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