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Participantes recebem orientações gerais e conhecem as peças da motosserra (Foto: Acervo da ONF Brasil)

 

De 18 a 22 de novembro do ano passado, um grupo de oito participantes recebeu a formação do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – SENAR na Fazenda São Nicolau. O apoio da ONF Brasil garantiu a estrutura física para a parte teórica do curso e também o espaço do campo para a parte prática. Entre os inscritos, estavam quatro colaboradores da Fazenda e quatro agricultores do PA Juruena que realizam trabalhos de diaristas ocasionalmente também na propriedade da ONF Brasil.

O principal objetivo da capacitação foi ensinar aos agricultores como realizar a manutenção básica e operar motosserra e roçadeira manual lateral, considerando o manual do fabricante e as orientações de segurança. O conteúdo programático compreendeu, por exemplo, o conceito de motosserra e roçadeira, as normas de saúde e segurança no trabalho, a legislação e fiscalização para o uso das ferramentas e os diversos modelos de equipamento existentes.

Por outro lado, no momento da prática, os participantes puderam ver como se deve misturar o combustível, os cuidados com produtos inflamáveis, as técnicas de partida da motosserra e roçadeira, suas regulagens, as tecnologias de corte de abate, a manutenção após o uso e as maneiras corretas para o descarte da sobra do combustível – evitando o impacto ao meio ambiente.

Apesar da reputação que acompanha a motosserra, vista como um equipamento de apoio ao desmatamento, a ferramenta é utilizada na Fazenda São Nicolau como aliada ao uso sustentável dos recursos florestais e no desenvolvimento de atividades produtivas sustentáveis. Ela possibilita o aproveitamento de árvores que caem naturalmente para obtenção de peças de madeira. Essas peças são empregadas na construção das estruturas na sede, pontes, cercas, galinheiro, composteira e caixas de abelhas por exemplo. Além disso, a motosserra viabiliza o manejo de florestas plantadas e em sistemas agroflorestais, além de contribuir para as frequentes retiradas de árvores caídas nas estradas no período de chuvas. As roçadeiras, por outro lado, são usadas na manutenção das áreas plantadas na fazenda, por exemplo as APPs.

Um dos participantes do curso foi o seu Mauro Brumado, que trabalha com motosserra há mais de duas décadas só na região do PA Juruena. O agricultor acredita que as novas práticas vão ajudar a aumentar o rendimento do trabalho. Afinal, além de algumas técnicas novas de corte, seu Mauro não vai mais precisar deixar a máquina parada tanto tempo na manutenção.

Já um jovem agricultor do assentamento, o Welliton Campos Ribeiro, lembrou das oportunidades criadas a partir da capacitação. Ele acredita que vai ser mais fácil conseguir trabalhar de diarista nas grandes fazendas, pois agora tem o certificado de operador de motosserra.

O Gilberto Araújo, coordenador de campo na Fazenda acredita que poderá melhorar a manutenção dos equipamentos da ONF Brasil e assim reduzir os custos associados e a durabilidade dos equipamentos.

Os cursos apoiados pela ONF Brasil na Fazenda São Nicolau buscam sensibilizar os colaboradores e parceiros para boas práticas e segurança no trabalho assim como estimular a responsabilidade ambiental dos parceiros e a possibilidade de geração de renda e melhoria de vida para as comunidades locais.

 

Participantes conheceram o biofiltro da água, também conhecido como círculo de bananeira, da cozinha da Fazenda (Foto: Saulo Thomas/ONF Brasil)

Participantes conheceram o biofiltro da água, também conhecido como círculo de bananeira, da cozinha da Fazenda (Foto: Saulo Thomas/ONF Brasil)

 

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Horta agroflorestal da Fazenda da Toca, no interior de São Paulo (Foto: Saulo Thomas/ ONF Brasil)

A formação de um arranjo produtivo de café agroflorestal no Noroeste de Mato Grosso é uma proposta idealizada pelo projeto PETRA e está caminhando para reunir os produtores do entorno da Fazenda São Nicolau em um esforço coletivo para a transformação das práticas agrícolas. A iniciativa pode levar à adoção mais generalizada de um sistema de produção sustentável e eficiente, em substituição à monocultura. Além de aumentar a produtividade, um dos resultados esperados do arranjo, que depende do envolvimento de mais participantes para atingir larga escala, é conseguir um prêmio de valor pela qualidade do grão de origem agroflorestal, que é melhor que orgânico[i] do ponto de vista ambiental. Na Fazenda São Nicolau, a primeira colheita dos pilotos de café agroflorestal está prevista para 2020 e os resultados fornecerão diretrizes para tornar a replicação da experiência viável, tanto para a equipe da Fazenda quanto para os agricultores do PA Juruena.

Um dos resultados esperados do arranjo, com o envolvimento de mais participantes, é de tornar o preço do grão mais competitivo e ampliar o seu potencial de comercialização. O aumento da qualidade do produto ofertado também permitirá a busca por mercados diferenciados com potencial valorização do preço de venda e contratos de compra fidelizados.

Uma oportunidade para fortalecer o arranjo local foi a participação do engenheiro florestal Saulo Thomas no curso intensivo sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs) da Fazenda da Toca, no interior de São Paulo, de 11 a 22 de julho. A Toca se destaca pelas experiências de agroflorestas em larga escala, acompanhadas de estratégias de marketing e comercialização valorizando essa modalidade de produção. A instituição já contou com a consultoria de Ernst Gotsch e Namaste  Messerschmidt, além da equipe da Preta Terra.

Durante as duas semanas de curso, o engenheiro do Programa de Integração Local da ONF Brasil teve contato com experiências bem-sucedidas de SAFs no assentamento Mario Lago, na Fazenda São Luís e na própria Fazenda da Toca.  Ao total, foram 12 dias de imersão nos quais a equipe do Toca Experiências abriu as portas da Fazenda. Na visita geral, o grupo conheceu a principal atividade produtiva atual, os ovos orgânicos, e a próxima aposta, o leite orgânico produzido em larga escala. Para Saulo, um dos momentos marcantes foi quando conheceu o Espaço Horizontes, um museu interativo (e quase uma viagem no tempo) para homenagear a história inspiradora de Abílio Diniz.

O curso apresentou experiências inovadoras, como o conceito de capitalismo social, no caso do sistema de arrendamento da área da horta, e também o processo de comercialização da Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA). Assim como na São Nicolau, a Toca tem um espaço destinado à produção de alimentos para atender a demanda do refeitório, sob responsabilidade de Maridélia Gonzaga, mestre em Agronomia.

A história de Maridélia é inspiradora, pois ela entrou na Toca pelo Programa Aprendiz e, há um ano atrás, apresentou um plano de negócios com o apoio da equipe da Toca Experiências. O resultado foi um investimento inicial da Fazenda para a estruturação da ideia e a produtora retorna esse recurso em parcelas planejadas.

Além de disponibilizar alimentos de altíssima qualidade para os colaboradores, como contrapartida, a horta agroflorestal também é sala de aula para os cursos. É uma vitrine muito didática e abundante da aplicação dos princípios naturais da biodiversidade. Rabanete, rúcula, alface, cenoura, beterraba, couve e brócolis no mesmo canteiro e organizados de maneira a ocuparem espaço e ciclo de vida diferentes. O arranjo também prevê linhas de árvores com bananeiras, espaçadas a cada 6 metros. A função é formar quebra-ventos e disponibilizar matéria orgânica pelas podas drásticas (pulsão), antes de cada renovação dos canteiros de hortaliças. Com essa prática, os canteiros necessitam cada vez menos de insumos, como a cama de frango dos aviários da Fazenda. Como a equipe obedece à risca a lição número 1, do solo sempre coberto, há a diminuição da regeneração de plantas indesejadas, como a tiririca, e se mantem a umidade do plantio.

A roça agroflorestal na Fazenda São Nicolau já tem um plantio estabelecido das linhas de árvores e bananeiras em um espaçamento semelhante. A próxima tarefa será a introdução de hortaliças entre essas linhas, tanto para potencializar a produção de alimentos para a cantina quanto para difundir a experiência com a visita dos estudantes no Programa de Educação Ambiental.

Conhecer a utilização das agroflorestas como ferramenta didática na Escola da Toca também fez parte do conteúdo programático do curso. O espaço simula uma comunidade sustentável com galinheiro, meliponário, compostagem, minhocário, biofiltro, banheiro seco de bioconstrução, cozinha, ateliê e sala de aula. A abordagem pedagógica é baseada em 3 eixos filosóficos: a natureza como mestra, a cultura da infância e o ser integral. Essas orientações resgatam a ligação dos seres humanos com a natureza. A introdução teórica desta pedagogia pode enriquecer as atividades de educação ambiental com as crianças na Fazenda São Nicolau.

O principal objetivo do Saulo, no entanto, era coletar informações para aprimorar o cluster de café agroflorestal no Noroeste de Mato Grosso. A intervenção da equipe de consultoria da Preta Terra foi fundamental, pois, durante 3 dias do curso, ela construiu um diálogo sobre os princípios e a sistematização de agroflorestas regenerativas, considerando os aspectos econômicos da prática. A partir dessa exposição, o Saulo realizou um exercício de planejamento de um SAF que servirá de base para orientar a expansão dos plantios na São Nicolau.

Na visita à Fazenda São Luís, Saulo aprendeu uma dica importante sobre a necessidade de luz no período de indução floral do café. Essa é a época ideal para realizar as podas no sistema – isto é, logo após a colheita. O engenheiro ficou admirado com os avanços das outras pesquisas práticas com agrofloresta em larga escala, tanto para formação de corredores ecológicos e quebra-ventos quanto para produção de soja e milho agroflorestais (plantados entre linhas de árvores espaçadas a 20 metros). Além dos benefícios ecológicos da inserção de árvores no sistema, o objetivo nos próximos testes é que o material triturado das podas complemente a cobertura do solo, principalmente para o controle da regeneração. A ação deve substituir o uso de herbicidas ou de gradeamentos excessivos. O Saulo ressaltou a determinação dos proprietários, que, em um contexto de monocultura de cana e queimadas, atuam como agentes transformadores da realidade e zelam pelo patrimônio histórico.

Outra visita do curso foi no assentamento Mario Lago. O engenheiro da ONF Brasil conheceu a cooperativa formada pelas famílias que plantam e vendem alimentos orgânicos. A iniciativa começou com 80 famílias em uma área de reserva legal comunitária e nas propriedades. Elas trabalham em sistema de mutirão e administram uma cooperativa, a Comuna da Terra. Atualmente essa organização está em processo de obter a certificação orgânica participativa, demonstrando que a agrofloresta pode fortalecer a economia local, garantir a autonomia para os produtores e regenerar a vegetação. Esse último benefício foi uma condição estabelecida para que as famílias pudessem ocupar o local, que é uma das maiores área de recarga do aquífero Guarani.

Saulo defende que os sistemas agroflorestais podem ser até mais eficientes do que os regimes de monocultura, pois possibilitam o cultivo de diversos produtos, otimizam o uso de recursos naturais e não agridem ou esgotam o solo ao final do ciclo produtivo. Algumas diferenças já podem ser observadas desde o início da implantação de um sistema agroflorestal, como o aumento no número de polinizadores e dispersores de sementes. A produção cria um ambiente mais favorável para essas espécies, como também melhora o microclima do sistema e favorece os serviços ecossistêmicos.

Na Fazenda São Nicolau, o engenheiro pretende replicar alguns dos conceitos aprendidos para o cultivo de hortaliças da roça dos colaboradores da ONF Brasil. Mas o objetivo principal com a experiência na Fazenda da Toca é implementar as novas técnicas para aperfeiçoar os pilotos de café na Fazenda São Nicolau e nas propriedades do PA Juruena. Após a primeira safra em 2020, será possível planejar a expansão do plantio e atingir maior escala até 2023.

[i] O grão de café agroflorestal apresenta maiores grãos e teores mais altos de açúcar devido ao aumento do período de maturação, fato que confere melhor qualidade à bebida. Além disso, as agroflorestas são sistemas mais sustentáveis que a produção orgânica convencional. Os SAFs replicam princípios de ecossistemas tropicais como sucessão ecológica, abundância e ciclagem de nutrientes. Também produzem grande parte de sua própria adubação, são eficientes em sequestro de carbono, têm capacidade de melhorar o microclima e são mais resilientes às alterações climáticas.