Filhote de Harpia

Filhote de harpia resgatado e liberado no meio ambiente (Foto: Eldile Oliveira)

Após três meses de cuidados, foi cortada a tela que separava o filhote de gavião real de sua liberdade. Essa águia, jovem macho, havia sido resgatada a pedido da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA-MT) e foi a segunda solta na Fazenda São Nicolau. Confortável no recinto de recuperação, a ave frustrou as expectativas da fotógrafa Karine Aigner da National Geographic, que estava acompanhando o Everton Miranda e o Eldile Oliveira na ocasião. A intenção era registrar o voo da soltura, mas o filhote preferiu esperar a equipe se distanciar para explorar o mundo externo.

A ação faz parte do projeto “Construindo uma estratégia para a conservação da harpia na Amazônia”, liderado pelo biólogo e mestre em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, Everton Miranda. O grupo de pesquisadores já catalogou 30 ninhos de harpias no Arco do Desmatamento em 4 anos e contam com a ajuda de coletores de castanha do Brasil, que recebem a recompensa de R$ 500,00 para reportar ninhos encontrados.

Para colaborar no resgate e na soltura do filhote da águia, Everton convidou seu ex-aluno: o engenheiro florestal Eldile Oliveira, servidor público no IFMT Campus Alta Floresta. Em uma crônica escrita por Eldile para o Eco, ele lembra as dificuldades da operação e a ansiedade de ver o filhote voar livremente pela primeira vez.

O resgate se iniciou em outubro do ano passado, quando, após o pedido da SEMA-MT, Everton e Eldile se dirigiram para Colniza (MT), a 1.064 km de Cuiabá. Uma família havia encontrado o filhote em uma área de desmatamento ilegal onde o animal poderia ter morrido pela queda quando a árvore em que seu ninho estava foi derrubada.

A família cuidou da águia por quatro meses, enquanto buscava por instituições de reabilitação e reintrodução de animais silvestres na natureza. Os familiares acessaram o Secretário de Agricultura de Colniza, Helio Mendes de Souza, para comunicar os órgãos ambientais da existência do filhote. Foi então que a SEMA-MT soube do caso e contatou o Everton.

A equipe do projeto enfrentou chuvas intensas e estradas precárias para chegar à propriedade da família. Quando faltavam 60 km para chegar a Colniza, se depararam com dois caminhões atravessados na estrada, cenário típico na região, e tiveram que dormir no caminho, em uma pequena vila.

Mas, no dia seguinte, chegaram ao local e se maravilharam com a harpia. “Poder ver o filhote tão de perto foi bastante emocionante para mim. No entanto, também me fez pensar no fato de que a Floresta Amazônica, com sua tão rica biodiversidade, está sendo devastada para que uma única espécie, o boi, passe a dominar as paisagens outrora exuberantes”, explicou Eldile.

O transporte da águia para Cotriguaçu (MT) contou com um recinto preparado especialmente para o filhote. Finalmente, com muita chuva às 23 horas, os pesquisadores passaram a ave para um outro recinto na Fazenda São Nicolau, espaço onde o animal ganhou peso e se acostumou com o ambiente.

Eldile também participou do processo de soltura do filhote em janeiro deste ano. Além dos pesquisadores, a National Geographic esteve presente para registrar o momento singular e as atividades do projeto das harpias, acompanhadas pela fotógrafa Karine Aigner e pela repórter Rachel Nuwer.

Às 10 horas, um dos lados da tela do recinto foi aberta. Porém o filhote não se interessou por sair de seu ninho artificial. O grupo decidiu seguir para o almoço, pensando que a privacidade poderia ser um estímulo para o animal alçar seu voo (ele ficou na companhia apenas da fotógrafa). Porém, até 13 horas o filhote não havia se movimentado. A liberdade foi alcançada posteriormente, quando ninguém estava olhando.

Mesmo reintroduzido no ambiente, o filhote ainda deve receber alimentos a cada três ou quatro dias por dois anos, quando se espera que ele seja capaz de sozinho capturar suas presas na Floresta Amazônica.

Anteriormente, outras duas harpias haviam sido resgatadas. A primeira, muito enfraquecida, infelizmente, morreu quando a equipe tentava liberar as licenças ambientais. A segunda, uma fêmea, foi solta na natureza e continua a receber alimentos. O desejo é que as duas águias virem um casal e construam um ninho na Fazenda São Nicolau.

 

Alunos de escolas públicas de Cotriguaçu visitam o viveiro de mudas da Fazenda São Nicolau (Foto: Acervo ONF Brasil)

Alunos de escolas públicas de Cotriguaçu visitam o viveiro de mudas da Fazenda São Nicolau (Foto: Acervo ONF Brasil)

 

O Pequeno Príncipe, escrito por Antoine de Saint-Exupéry, é livro de cabeceira de diferentes gerações e seus trechos são recorrentes nas mídias sociais. “O essencial é invisível aos olhos” é uma de suas frases mais marcantes, que inspirou o tema e uma dinâmica do Programa de Educação Ambiental (PEA) da ONF Brasil.

Essa dinâmica foi realizada com os colaboradores da Fazenda São Nicolau e com os alunos de escolas públicas e faculdades da região, sempre no início do dia, durante toda a semana. A proposta é relembrar elementos e serviços ofertados pela floresta que, apesar de serem praticamente invisíveis, estão presentes no dia a dia. A maioria é essencial para a vida na Terra, como a transformação do gás carbônico em oxigênio pelas árvores, a polinização realizada principalmente pelas abelhas, a decomposição da matéria orgânica pelos microrganismos, a regulação do clima, entre outros.

As atividades educativas aconteceram de 30 a outubro a 05 de novembro na Fazenda São Nicolau, que recebeu quatro escolas da região de Cotriguaçu, duas turmas de engenharia florestal da UNEMAT (Universidade do Estado de Mato Grosso) de Alta Floresta e visitou uma aldeia indígena Rikbaktsa. Contando com os colaboradores da fazenda, acolhidos para atividades em um dia exclusivo, foram 175 pessoas beneficiadas pelo PEA.

Entre as atividades da programação para os estudantes, estavam atividades práticas na roça agroflorestal, a apresentação da compostagem, do biofiltro, da trilha do Rio Juruena e da criação de abelhas sem ferrão. Essa última atividade virou um dos destaques para os diferentes públicos e somente foi possível aproveitando a expertise da equipe de educadores locais do PEA. O objetivo é potencializar a criação de abelhas sem ferrão, a meliponicultura.

Os visitantes puderam ver a caixa de abelhas aberta, revelando a estruturação da colônia com potes de mel, pólen, células de cria e própolis. Os colaboradores e os indígenas também participaram de uma oficina para montagem de isca para captura de colônia. O objetivo era facilitar a transferência do enxame para uma caixa racional, desenvolvida pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), que favorece a extração do mel sem danificar as outras estruturas de criação.

A parceria com o Povo Rikbaktsa da Terra Indígena Escondido começou no ano passado, durante a edição anterior do PEA. O grupo mostrou o desejo de inserir o plantio de café e cacau na aldeia. Com o apoio da ONF Brasil, foi possível adaptar os plantios dessas culturas à roça tradicional da etnia. Eles aplicaram o consórcio de espécies e a adubação natural. O resultado foi a manutenção da produção de alimentos, possibilitando futuramente a geração de renda e fortalecendo o trabalho em mutirão que é uma das maiores riquezas dos povos da floresta. O plantio corresponde a uma unidade experimental com apenas 1000 m², mas que conta com 40 pés de banana, 100 de café, 15 de cupuaçu, 15 de cacau e quatro castanheiras.

E foram as espécies frutíferas que surpreenderam os estudantes participantes do PEA. Eles encontraram uma fartura da safra das árvores de Bacupari (Garcinia gardneriana) plantadas na sede da Fazenda e da colheita de cenouras na roça. Eles se deliciaram com as frutas e raizes após ajudarem no plantio da horta agroflorestal.

 

As verduras da horta agroflorestal fizeram a alegria das crianças (Foto: Acervo ONF Brasil)

As verduras da horta agroflorestal fizeram a alegria das crianças (Foto: Acervo ONF Brasil)

Turmas de faculdades da região também foram recebidas na Fazenda. Dois grupos de estudantes de engenharia florestal da UNEMAT de Alta Floresta estavam em aula de campo acompanhados do professor de ecologia e bacias hidrográficas Everton Miranda. Eles puderam aprender na prática os conceitos de sucessão ecológica aplicados à produção agrícola em sistemas agroflorestais. A equipe da São Nicolau mostrou e explicou aos estudantes o arranjo utilizado nos novos canteiros da horta local, utilizando os conhecimentos aprendidos durante o curso na Fazenda da Toca, interior de São Paulo. O policultivo – estimulado também pela colaboradora nordestina Dona Helena, que aprendeu com a necessidade a potencializar a produção por área – é a tônica da horta. O plantio associa berinjela com alface e rúcula, quiabo com couve, jiló com alface e couve e milho com vagem, implantados entre linhas de 12 metros de distância de bananeiras e árvores frutíferas.

Os colaboradores foram os protagonistas na criação da horta e, no dia reservado para essa equipe, as visitas e conversas procuraram compartilhar com todas as atividades recém-iniciadas. Durante a manhã, eles visitaram a área de manejo da Teca, discutindo detalhes da operação, impactos ambientais positivos, renda gerada e utilização futura da área. Durante a tarde, o foco foi o potencial turístico da Fazenda e os colaboradores passearam pela trilha e apreciaram a vista da torre de observação montada pela SouthWild.

Neste ano, a edição do PEA procurou ampliar a participação de atores locais na equipe de educadores. Entre os facilitadores, estavam o coordenador do programa de Integração Local, Saulo Thomas, a presidente da Associação de Coletores (as) de Castanha-do-Brasil do PA Juruena (ACCPAJ), Veridiana Vieira, a presidente da associações dos feirantes de Cotriguaçu e criadora de abelhas sem ferrão, Helena de Jesus, o criador de abelhas sem ferrão, artesão e fotógrafo de Juína, Lucas de Souza, e o colaborador da Fazenda, Francisco de Assis.

 

Veja outras imagens das atividades:

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Estudantes de Engenharia Florestal da Unemat viajam para a São Nicolau (foto: Unemat)

 

Durante o ano inteiro, a Fazenda recebe pesquisadores, professores, educadores ambientais e alunos. Como resultado, a equipe da ONF Brasil divulga livros, guias, catálogos e artigos dos pesquisadores parceiros. Recentemente, por exemplo, Gustavo Júnior de Araújo do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso publicou no periódico Neotropical Entomology, o primeiro artigo científico com informações da sua tese de doutorado.

O estudo apresenta a investigação sobre como os diferentes tipos de reflorestamentos podem influenciar os padrões populacionais das vespas que constroem seus ninhos nesses novos ambientes.

Outro entusiasta das visitas à São Nicolau é o pesquisador Everton Miranda, mestre em Ecologia e Conservação da Biodiversidade. Ele enxerga a propriedade como um laboratório a céu aberto.

“A fazenda é uma das poucas estações de pesquisa na região do arco do desmatamento, sendo talvez a única com preços atrativos. Além disso, fica convenientemente localizada na MT 208 que está em sua maior parte asfaltada, e pode ser acessada a partir de Alta Floresta em poucas horas de viagem. A fazenda propriamente dita está cercada por tudo que é típico da região do arco do desmatamento: assentamentos do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), áreas de manejo florestal, pecuária e invasões de terra, propiciando assim um laboratório natural para compreender a sociologia da região”, justifica.

A última visita promovida por Everton aconteceu em novembro do ano passado, quando ele levou aproximadamente 30 estudantes de Engenharia Florestal da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) para a Fazenda. Após a atividades, vários estudantes se matricularam novamente nas disciplinas eletivas do Everton para visitarem a Fazenda mais uma vez.

 

Estudantes de Engenharia Florestal da Unemat viajam para a São Nicolau (foto: Unemat)

As trilhas oferecem lições práticas para os alunos (foto: Unemat)

 

De uma forma geral, a visita foi uma lição prática para o grupo, que visitou as trilhas do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) e conheceu os métodos de monitoramento de biodiversidade em grande escala. Nas trilhas, os alunos avistaram diversas espécies de fauna que são raras em outras regiões do Brasil, como o queixada e o macaco-barrigudo.

No período da tarde, as trilhas aconteceram às margens de áreas de restauração florestal, compreendendo Áreas de Proteção Permanentes (APPs), nascentes, e talhões de plantios florestais de diferentes composições. A caminhada passou pela RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Peugeot-ONF Brasil, apresentando um tipo de Unidades de Conservação para a turma.

“Na mesma ocasião, visitamos diversos agregados populacionais de castanheira, uma das espécies de árvores mais emblemáticas da Amazônia, dada sua importância socioambiental. Finalmente, nós praticamos a escalada em árvores em um indivíduo de castanheira de porte excepcional, que foi uma prática que certamente marcou todos os estudantes”, recordou Everton.

A aula de campo tem por objetivo a compreensão prática dos assuntos tratados em aula, considerando os processos ecológicos, sociais e econômicos da realidade local. Para o Everton, essas oportunidades são únicas, pois revelam as delícias e os prazeres do trabalho na maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo.

Os planos do Everton são de uma nova visita à São Nicolau em junho com um novo grupo de estudantes das disciplinas de Manejo de Fauna, Manejo de Áreas Silvestres e Manejo de Bacias Hidrográficas. A estrutura da propriedade facilita essas atividades, oferecendo alojamentos espaçosos, refeitórios, internet e auditório para reuniões formais. Além disso, as refeições preparadas pela Alaíde Xavie são elogiadas, bem como as soluções práticas e rápidas do Gilberto Araújo.

“A própria natureza da fazenda oferece um ambiente maravilhoso para o aprendizado de diversas facetas do funcionamento da Amazônia, contando com extensas áreas de floresta primária com trilhas georreferenciadas, fauna diversa e abundante, e áreas de reflorestamento que também são floristicamente variadas. Não há em Mato Grosso, ou mesmo na Amazônia, um equivalente onde se possa ter contato com tantas paisagens de maneira tão prática e conveniente”, conclui Everton.

Academia Brasileira de Ciências

Foto: Acervo da Academia Brasileira de Ciências

Entre 5 e 8 de junho, evento organizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) recebeu, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), membros da comunidade cientifica francesa e brasileira especialistas em biodiversidade e representantes de empresas que adotam esse tema como central nas suas atividades. Entre os cientistas presentes no Simpósio Bilateral Brasil-França sobre Biodiversidade, estava o Dr. Roberto Silveira, Coordenador Científico do projeto Poço de Carbono Florestal Peugeot-ONF (PPCFPO) e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), especialista em ecologia. O pesquisador foi convidado a apresentar os resultados gerados por estudos sobre biodiversidade na Fazenda São Nicolau e seus desdobramentos para contribuições nos campos da medicina por exemplo. 20 anos de projeto e de pesquisas na Fazenda colaboram com o acúmulo de conhecimento sobre o tema e na descrição de diferentes espécies. Essa intervenção da ONF Brasil no evento foi relevante para demonstrar como a iniciativa privada, em consórcio com instituições públicas, pode contribuir para a temática, especialmente em áreas onde há a urgência pela aquisição de informação básica, que ainda é escassa.

Durante a sessão, o Dr. Silveira apresentou números que atestam as contribuições do projeto para avanços na área. Até o momento, foram descritas 23 novas espécies de besouros e uma nova de peixes graças a levantamentos realizados na Fazenda. A expectativa é de que esse número aumente no futuro. Afinal, a maioria dos mais de 40 artigos produzidos por estudiosos associados ao PPCFPO abordam assuntos do campo da biodiversidade. Uma pesquisa de destaque revelou como os grandes mamíferos são continuamente afetados pelos desmatamentos ao redor da Fazenda São Nicolau, de forma que a vegetação nativa da propriedade se tornou um refúgio para esses animais.

Além disso, os reflorestamentos tiveram impacto positivo na recuperação de fauna de cupins, inseto importante no enriquecimento do solo. A biodiversidade estudada também apoia ações de combate ao câncer e à malária a partir do uso de compostos tóxicos de anfíbios, coletados na São Nicolau. O Dr Silveira se mostrou contente com a receptividade do projeto pelos participantes do Simpósio. “Perguntas foram direcionadas para o potencial uso dos reflorestamentos como fontes de renda para o Projeto e como isso poderia ser replicado em menor escala para o trabalhador local”, explicou.

O Simpósio Internacional Bilateral Brasil-França é realizado pela Academia Brasileira de Ciências e coordenado por Adalberto Val (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e por Vivaldo Moura Neto (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Os debates realizados no evento enfatizaram o direito de existir de diferentes formas de vida a serem preservadas e a relevância da biodiversidade para os serviços ecossistêmicos – purificação de água, regulação de clima, recuperação de solos, ciclagem de dejetos e produção de madeira – e a busca por soluções médicas e outros avanços científicos.

“Em particular a biodiversidade da Amazônia fica no meio de dois extremos, um deles sendo a enorme ignorância que temos sobre ela – por ser vasta e pouco estudada – e, no outro extremo, a rápida perda de habitat causada pelo desmatamento e substituição de áreas naturais por pastos. Essa pressão é especialmente alta no Mato Grosso e no Pará”, concluiu Silveira.

Veja mais fotos do evento, registro da Academia Brasileira de Ciências:

Simposio Internacional Bilateral Brasil 1

Simposio Internacional Bilateral Brasil 2

Simposio Internacional Bilateral Brasil 4

Grande e barulhento, o japu do Juruena surpreendeu os pesquisadores (Foto: Bruno Rennó)

Grande e barulhento, o japu do Juruena surpreendeu os pesquisadores (Foto: Bruno Rennó)

 

Durante os trabalhos de campo para o desenvolvimento do guia de aves da Fazenda São Nicolau no ano passado, os ornitólogos Vitor Piacentini, João Pinho, Victor Castro e Tiago Ferreira se depararam com a oportunidade única de observar e coletar material sobre uma população de japu-de-capacete atípica. O primeiro encontro com a ave misteriosa ocorreu em janeiro de 2012 na região do rio Juruena, Norte de Mato Grosso, pelos também ornitólogos Bruno Rennó e Vitor Torga. Bruno e Vitor estavam fazendo um inventário de aves no Arco do Desmatamento para auxiliar na conservação das espécies quando se surpreenderam com centenas de japu-de-capacete (Cacicus oseryi) em um ninhal em uma fazenda de Cotriguaçu. Foi neste momento que surgiu a dúvida se essa seria uma nova espécie ou subespécie de ave. Afinal, essa população estava a 1.100 km do seu local de distribuição conhecido: o extremo Oeste da Amazônia. A dupla coletou material para comparações com as coleções de japu-de-capacete, mas, dada a similaridade entre as populações, era preciso reunir mais dados para análise.

Há seis anos, o ninhal identificado estava em uma embaúba localizada na beira de um pequeno igarapé no meio da floresta no Vale do Juruena. Para os pesquisadores, não fazia sentido encontrar uma população reprodutiva do japu numa região tão longe de sua distribuição geográfica conhecida até então e ainda separada desta pelo rio Madeira, uma grande barreira natural para o acesso da espécie à região. Bruno e Vitor fotografaram os indivíduos, gravaram o seu repertório vocal e capturaram uma fêmea para comparação direta com o material do japu-de-capacete, disponível em coleções científicas no Brasil e no mundo. Nos dias que seguiram, também procuraram por novos ninhais, mas sem sucesso.

Os pesquisadores se lançaram à missão de identificar, a partir das coleções, se essa seria uma nova espécie. Essa tarefa é árdua, pois existe uma grande variação morfológica entre as espécies e é necessário ter acesso a dados que extrapolem um indivíduo para afirmar uma distinção clara. “A maioria das pessoas que não têm formação na área normalmente esquece que espécie é população e não indivíduo. E a natureza é pródiga em produzir diversidade e variação, mesmo dentro de uma única espécie. Diferenças ligadas à idade, sexo e local de ocorrência de um indivíduo podem tornar a delimitação de uma espécie algo bastante difícil, por vezes até subjetivo”, explicou Vitor Piacentini. Essa primeira análise revelou que a fêmea capturada era levemente mais escura que os indivíduos do Oeste amazônico. Foram examinados 40 exemplares do japu-de-capacete preservados no Museu Paraense Emílio Goeldi (Belém), American Museum of Natural History (Nova Iorque), Field Museum of Natural History (Chicago) e Louisiana State University Museum of Zoology (Baton Rouge).

Além da coloração da plumagem, as gravações revelaram sutis diferenças do canto dos japus encontrados em Mato Grosso. Contudo, as amostras genéticas obtidas em Cotriguaçu apresentaram problemas e não permitiram avaliar se havia de fato distinções entre essas populações. Os descobridores do japu no Mato Grosso sabiam que seria necessário retornar a campo para ampliar a amostra e, quando seus colegas do Laboratório de Ecologia de Aves da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) foram convidados a participar do guia de aves, acharam os parceiros que precisavam para tentar identificar o japu do Juruena.

A São Nicolau é vizinha da fazenda em que o ninhal havia sido encontrado pela primeira vez e, em novembro de 2017, os ornitólogos da UFMT se juntaram ao pesquisador Everton Miranda, já hospedado na Fazenda, onde estava desenvolvendo os levantamentos em campo para a elaboração de sua tese de doutorado sobre harpias. O grupo seguiu as coordenadas levantadas pelos pesquisadores em 2012 na esperança de encontrar novamente a população. No local, o silêncio imperava e o ninhal não existia mais (as embaúbas estavam quebradas por causa de fortes ventos). Houve ainda tentativas de tocar a voz da espécie em playback para atrair o japu. Sem nenhuma resposta, os pesquisadores retornaram decepcionados à São Nicolau.

O grupo sabia que teria uma semana de campo pela frente e ainda poderia achar a espécie furtiva. A surpresa aconteceu quando Vitor Piacentini escutou o canto do japu entre a algazarra das centenas de aves que se reuniam no entardecer em duas grandes touceiras de bambus exóticos, atrás do refeitório da Fazenda. “Cerca de um minuto depois de começar a observar com cuidado, uma ave cruzou o céu acima de mim e pousou numa haste de bambu. Uma ave grande, avermelhada, com a cara escura e que me olhava com olhos branco-azulados. O misterioso japu do Juruena fora reencontrado!”, relatou Vitor Piacentini. O reencontro permitiu, então, que pudessem ser retomados os trabalhos de comparação com os espécimes do Oeste da Amazônia.

 

O japu é reencontrado atrás do refeitório da Fazenda São Nicolau (Foto: Victor Castro)

O japu é reencontrado atrás do refeitório da Fazenda São Nicolau (Foto: Victor Castro)

 

As observações que se seguiram confirmaram as diferenças de plumagem para a população do Oeste amazônico. Mas, como as distinções não são muito chamativas, é possível que essa seja uma subespécie. O número de gravações do canto ainda é pequeno para apoiar um resultado mais categórico. O pesquisador Bret Whitney, da Universidade de Louisiana (EUA), recentemente conseguiu gravar chamados de alguns indivíduos em Colniza, também no Norte de Mato Grosso, confirmando que a espécie ocorre ao menos entre os rios Aripuanã e Juruena.

De posse de novas amostras de material genético, o próximo passo dos pesquisadores será uma análise molecular em busca de identificar a variação existente. Ainda é cedo para afirmar se o japu do Juruena é uma nova subespécie ou espécie. A única certeza é que uma nova ave grande, barulhenta e colorida encantou os pesquisadores no Arco do Desmatamento.

Curso de segurança no trabalho na Fazenda São Nicolau (Foto: ONF Brasil)

Curso de segurança no trabalho na Fazenda São Nicolau (Foto: ONF Brasil)

 

Na segunda semana de outubro do ano passado a Fazenda São Nicolau recebeu a visita de técnicos de segurança do trabalho do SESI (Serviço Social da Indústria) de Juína para ministrarem um curso de “Primeiros socorros” e elaborarem o “Programa de gestão em segurança, saúde e meio ambiente no trabalho rural”. Ao final da visita, foi desenvolvido um relatório de oportunidades para melhorias e a estrutura da Fazenda deve se adequar gradativamente aos planos. O documento resultou das observações realizadas em campo pelos instrutores e das entrevistas com os funcionários da fazenda sobre seu cotidiano e  suas atividades.

A atividade visa promover a segurança e a saúde no trabalho. A intenção é reconhecer, antecipar e avaliar os riscos. Dessa maneira, é possível diminuir casos de doenças e acidentes no ambiente de trabalho, assegurando a integridade de todos os envolvidos.

Os participantes aprenderam técnicas como a massagem cardíaca (Foto: ONF Brasil)

Os participantes aprenderam técnicas como a massagem cardíaca (Foto: ONF Brasil)

Além da obrigação legal, as formações foram motivadas por esse interesse da ONF Brasil de valorizar sua equipe e de garantir a qualidade e segurança do trabalho, especialmente em uma região de difícil acesso. Todos os funcionários da Fazenda participaram e demonstram interesse pelo conteúdo, que contou com a apresentação de técnicas que podem ser aplicadas para diminuir os impactos quando os acidentes acontecem. Algumas informações repassadas à turma compreenderam a importância dos primeiros socorros para salvar vidas em caso de acidente, técnicas de mobilização de membros, massagem cardíaca, respiração boca a boca, medidas para desengasgar e noções gerais para saber o que fazer e o que não fazer.

O objetivo maior é que os funcionários estejam prontos para prestar primeiros socorros sem causar mais danos à vítima, tornando a Fazenda São Nicolau cada vez mais segura e preparada, em caso de emergências.

*Com informações do site do SESI MT.