Jardim-de-formigas suspenso em um cipó em uma borda de floresta nativa e área de reflorestamento em estágio avançado de recuperação, na Fazenda São Nicolau (Imagem: Ricardo E. Vicente)

Jardim-de-formigas suspenso em um cipó em uma borda de floresta nativa e área de reflorestamento em estágio avançado de recuperação, na Fazenda São Nicolau
(Imagem: Ricardo E. Vicente)

 

A edição do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi – Ciências Naturais que inaugura 2020 apresenta um estudo de compilação de pesquisas realizadas sobre Jardins-de-formiga pelo mundo e resultados de cerca de 10 anos de investigações na Fazenda São Nicolau. O artigo é assinado pelo Dr. Ricardo E. Vicente, pesquisador e professor do PPGBioAgro da UNEMAT (Programa de Pós-graduação em Biodiversidade e Agroecossistemas Amazônicos da Universidade do Estado de Mato Grosso), Drª Ivone Vieira da Silva pesquisadora e professora do PPGBioAgro da UNEMAT, e Dr. Thiago Izzo, pesquisador e professor do PPGECB da UFMT (Programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso).

Os Jardins-de-formigas são interações de benefício mútuo entre formigas e plantas. Nesta interação, as formigas constroem o ninho na vegetação, plantam sementes de epífitas (plantas que crescem sobre outras plantas, como as orquídeas) e as protegem quando crescem. Em troca, as epífitas controlam a umidade do ninho, oferecem estrutura para ampliação do ninho e alimento para as formigas.

O boletim de janeiro/abril de 2020, intitulado “A Mirmecologia brasileira no século XXI”, reúne 25 publicações distribuídas em diversas áreas do conhecimento e oriundas de grupos de pesquisas de todas as regiões do Brasil e de instituições do exterior. O artigo dos pesquisadores associados à Fazenda São Nicolau recebeu o título de “Jardins-de-formigas: qual o estado do conhecimento sobre essas interações mutualísticas entre formigas e plantas?”. A revisão relembra trabalhos desde quando os Jardins foram descobertos até as pesquisas mais atuais.

“Os Jardins-de-formigas, apesar de serem um sistema ecológico incrível e serem encontrados ao longo da Amazônia, são praticamente desconhecidos pelos pesquisadores do território e pela população, por isso resolvemos realizar essa revisão em português para dar visibilidade ao sistema”, justifica Ricardo. 

O paper é resultado de estudos iniciados em 2009, durante um curso de campo do PPGECB da UFMT coordenado pelo professor Thiago. A articulação entre teoria e prática motivou Ricardo a pesquisar o sistema biológico e o direcionou para escolha do tema de seu doutorado. Os primeiros achados das pesquisas foram apresentados em 2014 no periódico Neotropical Entomology, quando Ricardo analisou a relação de químicos liberados por plantas de Jardins-de-formigas para sinalizar perturbação e chamarem as formigas para defendê-las.

Após a conclusão do doutorado, Ricardo visitou a Fazenda para acompanhar pesquisadores internacionais. A atividade foi uma parte da expedição que percorreu a América do Sul para investigar as relações mutualísticas entre formigas e fungos no continente. Enquanto recebia o grupo de pesquisadores, Ricardo também desenvolvia um projeto de pesquisa com Jardins-de-formigas no Museu Paraense Emilio Goeldi em parceria com o Dr. Rogerio Rosa, pesquisador da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia do Museu. 

Ricardo continuou com os estudos sobre os Jardins-de-formiga durante o pós-doutoramento na UNEMAT, sendo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Quanto mais estudo esse sistema incrível que é os Jardins-de-formigas, mais descubro preciosidades a se estudar. E esse projeto, desenvolvido em grande parte na Fazenda São Nicolau, é muito importante para fortalecer o conhecimento da biodiversidade da Amazônia, bem como, formar recursos humanos da região”, completa Ricardo.

O aprofundamento da pesquisa significa novas publicações e compartilhamento do conhecimento. Ano passado, no primeiro trimestre, Ricardo recebeu a visita de pesquisadores Belgas na Fazenda. Eles tinham interesse em conhecer os Jardins-de-formigas e a diversidade amazônica. A partir dessa visita, Ricardo escreveu e submeteu um artigo para uma revista internacional e está aguardando revisão. Além disso, Ricardo orientou, acompanhado pela Ivone, a mestranda Andreia Anjo Pereira do PPGBioAgro da UNEMAT. A pesquisadora desenvolveu sua dissertação sobre os Jardins-de-formigas na São Nicolau e também está submetendo um trabalho para revista científica internacional. Em breve, teremos novas publicações para divulgar.

Que as harpias estão perdendo habitat ao longo das florestas tropicais da América Central e do Sul é um fato bem conhecido. Mas qual a extensão e a distribuição dessa perda são assuntos que ainda não foram bem documentados pelos cientistas.

Essa demanda foi abordada em um estudo recente, publicado na revista internacional PLOS ONE, e os resultados são surpreendentes. O estudo foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat) de Alta Floresta, em colaboração com cientistas da UFMT, Israel, Inglaterra e Estados Unidos, e mostrou que a perda da distribuição da espécie já chega a mais de 40%. Determinado a aprender mais sobre a maior águia do mundo, Everton Miranda, especialista em predadores, notou que a distribuição das harpias vinha se reduzindo paulatinamente. Se nada for feito, é uma questão de tempo até que a distribuição da espécie esteja restrita somente à Amazônia.

 

2508198_a3630edea3460fb32807c1e096e43420

Harpia, também conhecida no Brasil como gavião-real, é a maior águia do mundo, chegando a 9kg de peso e 2,2m de envergadura. O animal é carnívoro e ocorre em florestas em bom estado de conservação. Foto: André Luiz Briso.

 

Dadas as dificuldades e custos de estimar apropriadamente a distribuição da espécie em tempo real, Miranda viu nas bases de dados dos passarinheiros – os observadores de aves – uma oportunidade para coletar dados sobre a distribuição dessa espécie elusiva. “Nós selecionamos as bases de dados dos observadores de aves, em particular o Wikiaves, como um caminho para estudar esse fenômeno, já que avistamentos da espécie são comuns em certas regiões onde ela ainda ocorre”, explica Everton Miranda. Os pesquisadores coletaram ainda dados sobre a presença de florestas e a densidade populacional humana de cada localidade onde os registros ocorreram. Naturalmente, baixas densidades populacionais e a presença de florestas foram os principais fatores determinando a chance de uma área ainda conter harpias. “Em áreas de baixa densidade populacional humana e grande cobertura florestal, nossos modelos indicam a presença de harpias” explica Miranda.

 

A harpia já perdeu 41% da sua distribuição, e do restante, 93% estão concentrados na Amazônia. Na Mata Atlântica, a Serra do Mar apresenta potencial para reintrodução.

A harpia já perdeu 41% da sua distribuição, e do restante, 93% estão concentrados na Amazônia. Na Mata Atlântica, a Serra do Mar apresenta potencial para reintrodução.

 

Essas áreas estão principalmente concentradas na Amazônia. Cerca de 93% da distribuição atual da harpia se encontra nessa região. Porém, o pesquisador explica que apesar de ser considerada uma extensa fortaleza da conservação, para as harpias, a Amazônia tem diversas fragilidades: “A região amazônica tem três problemas principais: a degradação de habitat pelo corte seletivo de madeira, que derruba as árvores gigantes que a harpia usa para construir seus ninhos; as terras indígenas, que cobrem 27% da região, onde as harpias são capturadas e mortas para o uso de suas penas”. Para piorar, há a expansão do desmatamento no sul e sudeste da Amazônia: “Na região do Arco do Desmatamento, além das duas ameaças já mencionadas, a floresta está constantemente sendo carbonizada para dar espaço ao pasto. As harpias já desapareceram da maior parte dessa região” completa o pesquisador. Os outros 7% da distribuição das harpias estão divididos em outras regiões, como a América Central, alguns enclaves florestais no Cerrado, e a Mata Atlântica.

Agora, os pesquisadores estão começando a propor soluções criativas para o problema “Uma área do estado de São Paulo, na serra do mar, ainda contém grandes extensões florestais dentro dos parques. Nessa área, já não há registro de harpias há muitos anos, embora ainda haja abundância das suas presas”, explica Miranda. “Esse espaço representa a possibilidade de reintrodução da espécie nessa região”.

 

No estudo também participaram Jorge F. S Menezes, Camila C. L. Farias, Charles Munn e Carlos A. Peres

Referência:

Miranda, E. B. P., Menezes, J. F., Farias, C. C., Munn, C., & Peres, C. A. (2019). Species distribution modeling reveals strongholds and potential reintroduction areas for the world’s largest eagle. PloS one, 14(5), e0216323.

877320c6-80ad-4b4e-8fc5-e61c52965509

Estudantes de Engenharia Florestal da Unemat viajam para a São Nicolau (foto: Unemat)

 

Durante o ano inteiro, a Fazenda recebe pesquisadores, professores, educadores ambientais e alunos. Como resultado, a equipe da ONF Brasil divulga livros, guias, catálogos e artigos dos pesquisadores parceiros. Recentemente, por exemplo, Gustavo Júnior de Araújo do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso publicou no periódico Neotropical Entomology, o primeiro artigo científico com informações da sua tese de doutorado.

O estudo apresenta a investigação sobre como os diferentes tipos de reflorestamentos podem influenciar os padrões populacionais das vespas que constroem seus ninhos nesses novos ambientes.

Outro entusiasta das visitas à São Nicolau é o pesquisador Everton Miranda, mestre em Ecologia e Conservação da Biodiversidade. Ele enxerga a propriedade como um laboratório a céu aberto.

“A fazenda é uma das poucas estações de pesquisa na região do arco do desmatamento, sendo talvez a única com preços atrativos. Além disso, fica convenientemente localizada na MT 208 que está em sua maior parte asfaltada, e pode ser acessada a partir de Alta Floresta em poucas horas de viagem. A fazenda propriamente dita está cercada por tudo que é típico da região do arco do desmatamento: assentamentos do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), áreas de manejo florestal, pecuária e invasões de terra, propiciando assim um laboratório natural para compreender a sociologia da região”, justifica.

A última visita promovida por Everton aconteceu em novembro do ano passado, quando ele levou aproximadamente 30 estudantes de Engenharia Florestal da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) para a Fazenda. Após a atividades, vários estudantes se matricularam novamente nas disciplinas eletivas do Everton para visitarem a Fazenda mais uma vez.

 

Estudantes de Engenharia Florestal da Unemat viajam para a São Nicolau (foto: Unemat)

As trilhas oferecem lições práticas para os alunos (foto: Unemat)

 

De uma forma geral, a visita foi uma lição prática para o grupo, que visitou as trilhas do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) e conheceu os métodos de monitoramento de biodiversidade em grande escala. Nas trilhas, os alunos avistaram diversas espécies de fauna que são raras em outras regiões do Brasil, como o queixada e o macaco-barrigudo.

No período da tarde, as trilhas aconteceram às margens de áreas de restauração florestal, compreendendo Áreas de Proteção Permanentes (APPs), nascentes, e talhões de plantios florestais de diferentes composições. A caminhada passou pela RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Peugeot-ONF Brasil, apresentando um tipo de Unidades de Conservação para a turma.

“Na mesma ocasião, visitamos diversos agregados populacionais de castanheira, uma das espécies de árvores mais emblemáticas da Amazônia, dada sua importância socioambiental. Finalmente, nós praticamos a escalada em árvores em um indivíduo de castanheira de porte excepcional, que foi uma prática que certamente marcou todos os estudantes”, recordou Everton.

A aula de campo tem por objetivo a compreensão prática dos assuntos tratados em aula, considerando os processos ecológicos, sociais e econômicos da realidade local. Para o Everton, essas oportunidades são únicas, pois revelam as delícias e os prazeres do trabalho na maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo.

Os planos do Everton são de uma nova visita à São Nicolau em junho com um novo grupo de estudantes das disciplinas de Manejo de Fauna, Manejo de Áreas Silvestres e Manejo de Bacias Hidrográficas. A estrutura da propriedade facilita essas atividades, oferecendo alojamentos espaçosos, refeitórios, internet e auditório para reuniões formais. Além disso, as refeições preparadas pela Alaíde Xavie são elogiadas, bem como as soluções práticas e rápidas do Gilberto Araújo.

“A própria natureza da fazenda oferece um ambiente maravilhoso para o aprendizado de diversas facetas do funcionamento da Amazônia, contando com extensas áreas de floresta primária com trilhas georreferenciadas, fauna diversa e abundante, e áreas de reflorestamento que também são floristicamente variadas. Não há em Mato Grosso, ou mesmo na Amazônia, um equivalente onde se possa ter contato com tantas paisagens de maneira tão prática e conveniente”, conclui Everton.

TimePhoto_20180719_163459

Felipe Daher retorna à São Nicolau para coletar dados para o seu mestrado (Foto: Felipe Daher)

 

Depois de três anos longe, se dedicando ao mestrado na França, o engenheiro florestal Felipe Daher passou uma semana na Fazenda São Nicolau, entre 15 e 22 de julho, e se impressionou com as transformações realizadas. De 2011 a 2015, Felipe era o engenheiro responsável por diferentes atividades promovidas pela ONF Brasil na São Nicolau e no PA Juruena, como o Programa de Integração Local, os Sistemas Agroflorestais e a recuperação das Áreas de Preservação Permanentes Degradadas (APPD). Os avanços na melhoria da infraestrutura física chamaram a atenção do engenheiro, que, quando trabalhava na Fazenda, acompanhou algumas das obras iniciais para a organização do espaço físico.

Nesta nova visita à São Nicolau, o foco do engenheiro se voltou para as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e ele notou bons resultados na recuperação da cobertura vegetal. “Eu gostei muito dos resultados que vi nas APPD e no viveiro, como, por exemplo, a produção de mudas de castanha. Achei muito pertinente o trabalho de mapeamento dos castanhais, a parceria com o grupo de turismo e de saber que o plano de manejo florestal sustentável está aprovado”, elencou.

O mapeamento dos castanhais na região faz parte das atividades de apoio à cadeia produtiva, desenvolvidas em parceria com extrativistas locais. A coleta da castanha-do-Brasil é uma das principais atividades econômicas que valorizam e dependem da floresta em pé no Noroeste de Mato Grosso e já conta com um projeto de minuta para o Plano de Manejo Florestal Sustentável Não-Madeireiro. O engenheiro celebrou ainda a criação da base de dados online que disponibilizará à toda população o conhecimento gerado na Fazenda.

 

O engenheiro notou a recuperação da cobertura vegetal das APPs (Foto: Felipe Daher)

 

Em julho, o Felipe foi a campo na Fazenda para colher dados de monitoramento do estágio de regeneração das áreas restauradas pelo Projeto Poço de Carbono Florestal Peugeot-ONF. A atividade faz parte do seu mestrado em Geomática, área da Geografia dedica à obtenção, gerenciamento e análise de dados espaciais. O projeto de pesquisa, desenvolvido na Universidade de Rennes, na França, pretende verificar e validar a metodologia de interpretação de informações obtidas via satélite com aquelas coletadas em campo, os chamados dados de validação. O trabalho abrange o município de Cotriguaçu (MT) e toda a região do chamado “Portal da Amazônia”. O Portal da Amazônia, área situada no coração do Arco do Desenvolvimento ao Norte de Mato Grosso, se destaca pelos fragmentos florestais que ainda existem no local. A região é delimitada pelos rios Tapajós, Teles Pires, Xingu e Juruena.

O trabalho é realizado em colaboração com o Instituto Centro de Vida (ICV) e o estudo contribuirá para um projeto de pesquisa em maior escala envolvendo os pesquisadores do CIRAD (Centro de cooperação internacional em pesquisa agronômica para o desenvolvimento) em várias localidades da Amazônia. Os aprendizados gerados pela pesquisa do Felipe poderão contribuir para o desenvolvimento do Observatório Territorial do projeto PETRA (Plataforma Experimental para gestão dos Territórios Rurais da Amazônia Legal). Afinal, um dos resultados esperados do trabalho do engenheiro é a atualização da base de dados e de informações da região, em especial sobre a restauração e a regeneração ambiental.

Felipe acredita que a formação dos técnicos e colaboradores da Fazenda também é uma mudança positiva e fundamental para o fortalecimento do trabalho realizado. O engenheiro pontua a importância das atividades e projetos desenvolvidos pela ONF Brasil para a mudança do paradigma ambiental no Noroeste de Mato Grosso.