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Exploração da teca, espécie com alto potencial em estocagem de carbono   (Foto: Acervo ONF Brasil)

 

Em outubro a ONF Brasil iniciou a exploração da teca, única espécie exótica do projeto Poço de Carbono Florestal Peugeot-ONF (PPCFPO) com potencial para exploração da madeira. A teca (tectona grandis), de origem do sudeste asiático, é uma espécie que se adaptou muito bem no Mato Grosso devido ao clima do estado. Seu crescimento rápido lhe confere um alto potencial em estocagem de carbono.  Sua madeira é uma das mais valiosas e apreciadas, com forte procura no mercado internacional, por suas altas qualidades de resistência e estética. Ela tem uso múltiplo, sendo para a criação de móveis, objetos decorativos ou também na indústria naval. No Brasil, 90% da área plantada de teca encontra-se no Mato Grosso (Associação Brasileira de Produtores de Floresta Plantada, 2018), onde são registrados mais de 70mil ha de plantação, ficando atrás apenas do eucalipto como principal espécie exótica em reflorestamentos no estado. A produção de teca mato-grossense ainda é em maioria destinada à exportação em tora.

Os recursos levantados na venda da teca da Fazenda serão reinvestidos no projeto, garantindo a continuidade das atividades gerais e o replantio dos talhões explorados em sistemas mistos com alta eficiência em produtividade e estocagem de carbono. O tratamento silvicultural clássico de plantações de teca, após um plantio adensado, incluem desbrotas e desbastes periódicos que permitem o maior e melhor desenvolvimento dos indivíduos dominantes. Em 20 a 25 anos, chega-se a uma plantação de árvores de grandes diâmetros, sendo os de maior valor agregado no mercado.

Na fazenda São Nicolau, o manejo foi menos intensivo e a desbrota das tecas nos talhões do poço de carbono iniciou somente em 2010 e não foram realizados os desbastes periódicos mesmo se previstos no escopo de certificação. O objetivo do plantio incialmente era essencialmente para a pesquisa de potencial da espécie para estocagem de carbono e, eventualmente para testar o mercado de aproveitamento da madeira na região noroeste.

Após quase 20 anos de crescimento as árvores atingiram seu máximo potencial de desenvolvimento, resultado na estagnação do crescimento em sua idade madura. Ou seja, chegaram ao máximo de capacidade de estocagem de carbono e à época indicada para o corte apesar do baixo manejo realizado na área. Demonstraram à alta qualidade da área da Fazenda para a produção de teca mesmo se somente as árvores com potencial comercial são aproveitadas para a venda da madeira. A maior e mais bonita tora explorada em 2019 tinha 6m de comprimento, bem regular, com 147cm de circunferência.

As árvores com potencial de aproveitamento são selecionadas, cortadas e transportadas para o pátio, onde são medidas (para cálculo do volume). A partir de então, são transportadas pela empresa parceira, responsável pela exportação. O carbono contido nas toras vendidas será deduzido do total estocado no poço no próximo inventário carbono e portanto não poderá gerar créditos comercializáveis.

A venda demonstra a viabilidade da cadeia produtiva de teca além de levantar os gargalos para a atividade e as oportunidades para seu crescimento. A disseminação das informações pode incentivar outros produtores regionais a realizarem um manejo consciente, com impactos ambientais positivos.

Os novos plantios que serão realizados nos talhões explorados contribuirão igualmente para o objetivo principal do PPCFPO, a estocagem de carbono e a mitigação das mudanças climáticas, associado à produção sustentável.

Os 90% restante da área de reflorestamento do poço de carbono foram plantados com espécies nativas sem objetivo de exploração de madeira. Eles representam a maior parte do carbono estocado ao longo dos anos, conforme monitorado pelo inventario anual.

Os 120 ha de APPs degradadas que existiam na propriedade antes de sua compra pela ONF Brasil, também foram restaurados com espécies nativas, produzidas no viveiro da Fazenda. Nesse caso o plantio tem único objetivo de restauração, o carbono estocado não é inventariado e não pode ser objeto de certificação para venda de créditos de carbono.

A floresta nativa preservada, por outro lado, constitui um reservatório estável de carbono. Parte dela fica intocada na RPPN e a área restante possui Plano de manejo Florestal Sustentável madeireiro e Plano de Manejo Florestal Simplificado Não Madeireiro (para a castanha do Brasil) aprovados pela SEMA-MT. Os planos garantem a exploração dos diversos produtos da floresta, com responsabilidade, durabilidade e legalidade. A coleta sustentável da castanha é realizada pela ACCPAJ há vários anos e a exploração sustentável de madeira nativa deve iniciar a partir de 2020 com seus impactos serão monitorados por rede de parcelas permanentes.

Desenvolver essas diversas atividades na Fazenda São Nicolau permite testar e demostrar a viabilidade econômica da floresta em pé, assim como alternativas produtivas eficientes com impacto ambiental positivo para as áreas consolidadas.

Veja mais imagens da exploração da teca:

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Alan Bernardes ao lado de membros da banca. (Foto: acervo ONF Brasil)

Alan Bernardes ao lado de membros da banca. (Foto: acervo ONF Brasil)

A dissertação do engenheiro florestal Alan Bernardes foi defendida em 14 de junho no Programa de Mestrado de Ciências Florestais e Ambientais da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso). O objetivo do estudo foi avaliar se haveria diferenças nos parâmetros analisados para o conjunto das árvores – por exemplo, biomassa e densidade populacional – se as parcelas de monitoramento tivessem tamanhos diferentes. Os dados usados foram os aqueles coletados na rede de parcelas permanentes instalada no início do ano, conforme protocolo acordado com CIRAD, Embrapa Amazônia Oriental e UFMT. Eles serão fornecidos para as Redes de Parcelas Internacionais (TmFO e Redeflor), que monitoram dados de florestas tropicais no mundo inteiro.

Trabalhando e residindo na Fazenda São Nicolau, Alan recebeu todo o apoio da ONF Brasil para conciliar suas responsabilidades na empresa com os desafios de estudante mestrando. A organização financiou a flexibilização de horários e logística para que Alan pudesse atender às aulas condensadas, a operacionalização da pesquisa, além de fornecer suporte para o trabalho de campo, a equipe de colaboradores, os materiais disponíveis e a coleta de dados. A situação do Alan também foi diferente da maioria dos estudantes de mestrado. Se, por um lado, ele estava distante fisicamente da universidade, por outro, Alan se encontrava em uma situação privilegiada por ter experiência de campo e para coletar os dados.

“Foi uma dinâmica diferente dos alunos de concentração exclusiva, que residem em Cuiabá e passam todo o período na universidade. O que fiz foi concluir os créditos ao longo dos dois anos, privilegiando disciplinas condensadas, em Sinop e Cuiabá. Assim, mediante apoio da ONF Brasil e da UFMT, fui realizando as disciplinas, traçando o projeto com o professor, montando o trabalho de campo e coletando os dados no último ano até a conclusão do trabalho”, explica.

A dissertação, orientada pelo prof. Dr. Samuel de Pádua Chaves e Carvalho, se insere na linha de pesquisa sobre Manejo Florestal e testou quatro tamanhos diferentes de parcelas durante o diagnóstico florestal: 0,25 ha, 0,50 ha, 0,75 ha e 1,00 ha. A partir dessas informações, foi possível avaliar quais parcelas apresentariam as melhores estimativas dos parâmetros biométricos, a saber biomassa, densidade populacional e estrutura de diâmetro.

Os resultados da pesquisa indicaram que, de maneira geral, nesta etapa de diagnóstico inicial, não houve influência do tamanho da parcela nos atributos biométricos. Ou seja, a menor unidade amostral – aquela de 0,25 ha – apresentou uma boa eficácia para a predição dos parâmetros. Portanto, todos os tamanhos de parcelas simulados na pesquisa poderiam ser utilizados em inventários florestais no Noroeste de Mato Grosso.

A dissertação recebeu contribuições dos professores que compuseram a banca final, o orientador Samuel, o coorientador Dr. Ronaldo Drescher, além dos outros membros da banca, o Dr. Marcos Felipe Nicoletti e o Dr. Carlos Alberto Silva.

A ideia da pesquisa surgiu após uma visita do Centro de cooperação internacional em pesquisa agronômica para o desenvolvimento (CIRAD) na Fazenda São Nicolau.  Durante o trabalho, o pesquisador Lilian Blanc apresentou a tendência de uso de parcelas maiores para facilitar o processo de inventário em redes de parcelas permanentes de monitoramento florestal. Assim a ideia foi pautada, em compará-las com o estudo de parcelas menores, usadas como modelo para os diagnósticos avaliados pela Sema-MT. Os dados permitem a futura comparação entre áreas de manejo antes e depois da exploração florestal.

Para o futuro a intenção é remedir as parcelas, após a exploração, e entender melhor os efeitos dessas práticas para o ecossistema. Com o compartilhamento dos dados nas redes internacionais, esperam-se outros resultados comparativos sobre as dinâmicas das florestas tropicais e os impactos dos manejos em diversas condições.

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Felipe Daher retorna à São Nicolau para coletar dados para o seu mestrado (Foto: Felipe Daher)

 

Depois de três anos longe, se dedicando ao mestrado na França, o engenheiro florestal Felipe Daher passou uma semana na Fazenda São Nicolau, entre 15 e 22 de julho, e se impressionou com as transformações realizadas. De 2011 a 2015, Felipe era o engenheiro responsável por diferentes atividades promovidas pela ONF Brasil na São Nicolau e no PA Juruena, como o Programa de Integração Local, os Sistemas Agroflorestais e a recuperação das Áreas de Preservação Permanentes Degradadas (APPD). Os avanços na melhoria da infraestrutura física chamaram a atenção do engenheiro, que, quando trabalhava na Fazenda, acompanhou algumas das obras iniciais para a organização do espaço físico.

Nesta nova visita à São Nicolau, o foco do engenheiro se voltou para as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e ele notou bons resultados na recuperação da cobertura vegetal. “Eu gostei muito dos resultados que vi nas APPD e no viveiro, como, por exemplo, a produção de mudas de castanha. Achei muito pertinente o trabalho de mapeamento dos castanhais, a parceria com o grupo de turismo e de saber que o plano de manejo florestal sustentável está aprovado”, elencou.

O mapeamento dos castanhais na região faz parte das atividades de apoio à cadeia produtiva, desenvolvidas em parceria com extrativistas locais. A coleta da castanha-do-Brasil é uma das principais atividades econômicas que valorizam e dependem da floresta em pé no Noroeste de Mato Grosso e já conta com um projeto de minuta para o Plano de Manejo Florestal Sustentável Não-Madeireiro. O engenheiro celebrou ainda a criação da base de dados online que disponibilizará à toda população o conhecimento gerado na Fazenda.

 

O engenheiro notou a recuperação da cobertura vegetal das APPs (Foto: Felipe Daher)

 

Em julho, o Felipe foi a campo na Fazenda para colher dados de monitoramento do estágio de regeneração das áreas restauradas pelo Projeto Poço de Carbono Florestal Peugeot-ONF. A atividade faz parte do seu mestrado em Geomática, área da Geografia dedica à obtenção, gerenciamento e análise de dados espaciais. O projeto de pesquisa, desenvolvido na Universidade de Rennes, na França, pretende verificar e validar a metodologia de interpretação de informações obtidas via satélite com aquelas coletadas em campo, os chamados dados de validação. O trabalho abrange o município de Cotriguaçu (MT) e toda a região do chamado “Portal da Amazônia”. O Portal da Amazônia, área situada no coração do Arco do Desenvolvimento ao Norte de Mato Grosso, se destaca pelos fragmentos florestais que ainda existem no local. A região é delimitada pelos rios Tapajós, Teles Pires, Xingu e Juruena.

O trabalho é realizado em colaboração com o Instituto Centro de Vida (ICV) e o estudo contribuirá para um projeto de pesquisa em maior escala envolvendo os pesquisadores do CIRAD (Centro de cooperação internacional em pesquisa agronômica para o desenvolvimento) em várias localidades da Amazônia. Os aprendizados gerados pela pesquisa do Felipe poderão contribuir para o desenvolvimento do Observatório Territorial do projeto PETRA (Plataforma Experimental para gestão dos Territórios Rurais da Amazônia Legal). Afinal, um dos resultados esperados do trabalho do engenheiro é a atualização da base de dados e de informações da região, em especial sobre a restauração e a regeneração ambiental.

Felipe acredita que a formação dos técnicos e colaboradores da Fazenda também é uma mudança positiva e fundamental para o fortalecimento do trabalho realizado. O engenheiro pontua a importância das atividades e projetos desenvolvidos pela ONF Brasil para a mudança do paradigma ambiental no Noroeste de Mato Grosso.