Estagiário trabalha na horta agroflorestal da São Nicolau (Foto: Saulo Thomas)

Estagiário trabalha na horta agroflorestal da São Nicolau (Foto: Saulo Thomas)

 

Ao longo de 2018 a roça agroflorestal da Fazenda, poupou mais de 6 mil reais na compra de alimentos para o refeitório. No futuro, essa estimativa deve descontar os custos de manutenção da horta, mas, por ora, é um indicador do sucesso da iniciativa e da possibilidade de suprir o refeitório da Fazenda com alimentos saudáveis e sustentáveis. No cardápio do café da manhã, do lanche da tarde e da janta, a melancia é o produto da roça preferido pela equipe. As pessoas ficaram tão acostumadas com os alimentos fresquinhos que reclamam quando faltam folhas e legumes.

“Hortaliças e legumes não faziam parte do hábito alimentar de todos e, aos poucos, eles estão sentindo a falta quando essas comidas não estão presentes”, comenta o engenheiro florestal Saulo Thomas, do Programa de Integração Local. A roça agroflorestal passou a despertar o interesse dos colaboradores a partir de setembro de 2016. O avanço mais recente da iniciativa foi a introdução de hortifrútis nas entrelinhas dos canteiros principais.

Entre os objetivos desse cultivo, está a possibilidade de replicação do modelo por escolas, plantios comunitários e fazendas locais. Com esse intuito, as práticas e as ferramentas para a consolidação da horta estão em processo de aperfeiçoamento para, no futuro, servirem de referência. Considerando que a logística de beneficiamento em larga escala dos alimentos substituiu a tradição da produção de subsistência, a expectativa é de que o modelo de horta da Fazenda São Nicolau se torne mais viável para locais onde a produção pode atender à demanda de consumo.

A horta foi planejada para ser implementada em módulos, facilitando a operacionalização e o escalonamento da produção. A referência técnica para o desenvolvimento desses módulos surgiu com a participação do Saulo no curso intensivo sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs) da Fazenda da Toca, no interior de São Paulo, em julho do ano passado. No assentamento Mário Lago, visitado durante o treinamento, são utilizados módulos de horta agroflorestal para mais de 30 famílias. Na região, o mercado já está consolidado para o escoamento e consegue absorver a produção com valor agregado por ser orgânica.

Na São Nicolau, a roça está dando seus primeiros passos e o gerenciamento dos módulos é realizado com o apoio dos três estagiários do curso técnico em agropecuária do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), campus de Juína. Lucas Lauro Lima, Aline Vitória Mendes França e Milca Ferreira trabalham na produção de hortaliças, nos SAFs, no projeto de recuperação de área degradada, na produção de mudas florestais e frutíferas e no manejo de gado em sistemas tradicionais, silvipastoris e racionais.

O cuidado das áreas degradadas, principalmente a recuperação e proteção de Áreas de Preservação Permanente (APPs), é uma atividade que recebeu muita dedicação por parte dos estagiários. Na São Nicolau, os estudantes contribuíram para restaurar trechos da Fazenda que, antes da aquisição pela ONF Brasil, havia sofrido com pastagens e cultivos convencionais. No momento, a recuperação de todas as APPs da Fazenda está na fase de finalização.

Outro espaço de recuperação ambiental e de atuação dos estagiários foi o sítio Bom Jesus do  Antônio Lúcio de Oliveira. O sonho de preservar a riqueza natural na propriedade existe desde a sua aquisição e a ação se tornou urgente pela intensidade da degradação causada pela dessedentação do gado. O plano de ação foi elaborado durante o curso “Meio Ambiente e Educação Ambiental – Um Diálogo Inicial”, promovido pela ONF Brasil em parceria com a Sema/MT. O projeto programou a recuperação de forma gradual e utilizando o mínimo de recursos possíveis. Um exemplo é a escolha da tecnologia alternativa de cercas vivas formadas pela espécie Gliricídia sepium, muito usada no semiárido brasileiro.

Antes da implementação das estacas para a cerca viva, os estagiários realizaram uma revisão bibliográfica sobre a espécie e formas alternativas para fornecer água ao gado (como o carneiro hidráulico). As próximas etapas compreendem a execução da cerca em outros piquetes e o enriquecimento da área protegida com árvores frutíferas e espécies de interesse econômico, como o café e o urucum (para corantes naturais em alimentos e cosméticos).

A participação dos jovens em práticas sustentáveis é fundamental para a sua formação como profissionais conscientes. Os estagiários deixaram a São Nicolau conhecendo ações simples, como a roça agroflorestal, que podem gerar diversos benefícios sociais, ambientais e econômicos. Entre as vantagens, estão a regeneração de solos e a regulação do microclima local. Com o apoio dos estudantes, a Fazenda pode se tornar referência e difundir os bons resultados, principalmente pelos os colaboradores da ONF Brasil.

“A região Noroeste também é estratégica pelo fato de ser a fronteira agrícola com a Floresta Amazônica. Qualquer ação que diminua a pressão sobre o desmatamento ou mitigue seus efeitos é fundamental para a regulação do clima e o regime de chuva do Brasil”, concluiu Saulo.

Participantes conheceram o biofiltro da água, também conhecido como círculo de bananeira, da cozinha da Fazenda (Foto: Saulo Thomas/ONF Brasil)

Participantes conheceram o biofiltro da água, também conhecido como círculo de bananeira, da cozinha da Fazenda (Foto: Saulo Thomas/ONF Brasil)

 

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Horta agroflorestal da Fazenda da Toca, no interior de São Paulo (Foto: Saulo Thomas/ ONF Brasil)

A formação de um arranjo produtivo de café agroflorestal no Noroeste de Mato Grosso é uma proposta idealizada pelo projeto PETRA e está caminhando para reunir os produtores do entorno da Fazenda São Nicolau em um esforço coletivo para a transformação das práticas agrícolas. A iniciativa pode levar à adoção mais generalizada de um sistema de produção sustentável e eficiente, em substituição à monocultura. Além de aumentar a produtividade, um dos resultados esperados do arranjo, que depende do envolvimento de mais participantes para atingir larga escala, é conseguir um prêmio de valor pela qualidade do grão de origem agroflorestal, que é melhor que orgânico[i] do ponto de vista ambiental. Na Fazenda São Nicolau, a primeira colheita dos pilotos de café agroflorestal está prevista para 2020 e os resultados fornecerão diretrizes para tornar a replicação da experiência viável, tanto para a equipe da Fazenda quanto para os agricultores do PA Juruena.

Um dos resultados esperados do arranjo, com o envolvimento de mais participantes, é de tornar o preço do grão mais competitivo e ampliar o seu potencial de comercialização. O aumento da qualidade do produto ofertado também permitirá a busca por mercados diferenciados com potencial valorização do preço de venda e contratos de compra fidelizados.

Uma oportunidade para fortalecer o arranjo local foi a participação do engenheiro florestal Saulo Thomas no curso intensivo sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs) da Fazenda da Toca, no interior de São Paulo, de 11 a 22 de julho. A Toca se destaca pelas experiências de agroflorestas em larga escala, acompanhadas de estratégias de marketing e comercialização valorizando essa modalidade de produção. A instituição já contou com a consultoria de Ernst Gotsch e Namaste  Messerschmidt, além da equipe da Preta Terra.

Durante as duas semanas de curso, o engenheiro do Programa de Integração Local da ONF Brasil teve contato com experiências bem-sucedidas de SAFs no assentamento Mario Lago, na Fazenda São Luís e na própria Fazenda da Toca.  Ao total, foram 12 dias de imersão nos quais a equipe do Toca Experiências abriu as portas da Fazenda. Na visita geral, o grupo conheceu a principal atividade produtiva atual, os ovos orgânicos, e a próxima aposta, o leite orgânico produzido em larga escala. Para Saulo, um dos momentos marcantes foi quando conheceu o Espaço Horizontes, um museu interativo (e quase uma viagem no tempo) para homenagear a história inspiradora de Abílio Diniz.

O curso apresentou experiências inovadoras, como o conceito de capitalismo social, no caso do sistema de arrendamento da área da horta, e também o processo de comercialização da Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA). Assim como na São Nicolau, a Toca tem um espaço destinado à produção de alimentos para atender a demanda do refeitório, sob responsabilidade de Maridélia Gonzaga, mestre em Agronomia.

A história de Maridélia é inspiradora, pois ela entrou na Toca pelo Programa Aprendiz e, há um ano atrás, apresentou um plano de negócios com o apoio da equipe da Toca Experiências. O resultado foi um investimento inicial da Fazenda para a estruturação da ideia e a produtora retorna esse recurso em parcelas planejadas.

Além de disponibilizar alimentos de altíssima qualidade para os colaboradores, como contrapartida, a horta agroflorestal também é sala de aula para os cursos. É uma vitrine muito didática e abundante da aplicação dos princípios naturais da biodiversidade. Rabanete, rúcula, alface, cenoura, beterraba, couve e brócolis no mesmo canteiro e organizados de maneira a ocuparem espaço e ciclo de vida diferentes. O arranjo também prevê linhas de árvores com bananeiras, espaçadas a cada 6 metros. A função é formar quebra-ventos e disponibilizar matéria orgânica pelas podas drásticas (pulsão), antes de cada renovação dos canteiros de hortaliças. Com essa prática, os canteiros necessitam cada vez menos de insumos, como a cama de frango dos aviários da Fazenda. Como a equipe obedece à risca a lição número 1, do solo sempre coberto, há a diminuição da regeneração de plantas indesejadas, como a tiririca, e se mantem a umidade do plantio.

A roça agroflorestal na Fazenda São Nicolau já tem um plantio estabelecido das linhas de árvores e bananeiras em um espaçamento semelhante. A próxima tarefa será a introdução de hortaliças entre essas linhas, tanto para potencializar a produção de alimentos para a cantina quanto para difundir a experiência com a visita dos estudantes no Programa de Educação Ambiental.

Conhecer a utilização das agroflorestas como ferramenta didática na Escola da Toca também fez parte do conteúdo programático do curso. O espaço simula uma comunidade sustentável com galinheiro, meliponário, compostagem, minhocário, biofiltro, banheiro seco de bioconstrução, cozinha, ateliê e sala de aula. A abordagem pedagógica é baseada em 3 eixos filosóficos: a natureza como mestra, a cultura da infância e o ser integral. Essas orientações resgatam a ligação dos seres humanos com a natureza. A introdução teórica desta pedagogia pode enriquecer as atividades de educação ambiental com as crianças na Fazenda São Nicolau.

O principal objetivo do Saulo, no entanto, era coletar informações para aprimorar o cluster de café agroflorestal no Noroeste de Mato Grosso. A intervenção da equipe de consultoria da Preta Terra foi fundamental, pois, durante 3 dias do curso, ela construiu um diálogo sobre os princípios e a sistematização de agroflorestas regenerativas, considerando os aspectos econômicos da prática. A partir dessa exposição, o Saulo realizou um exercício de planejamento de um SAF que servirá de base para orientar a expansão dos plantios na São Nicolau.

Na visita à Fazenda São Luís, Saulo aprendeu uma dica importante sobre a necessidade de luz no período de indução floral do café. Essa é a época ideal para realizar as podas no sistema – isto é, logo após a colheita. O engenheiro ficou admirado com os avanços das outras pesquisas práticas com agrofloresta em larga escala, tanto para formação de corredores ecológicos e quebra-ventos quanto para produção de soja e milho agroflorestais (plantados entre linhas de árvores espaçadas a 20 metros). Além dos benefícios ecológicos da inserção de árvores no sistema, o objetivo nos próximos testes é que o material triturado das podas complemente a cobertura do solo, principalmente para o controle da regeneração. A ação deve substituir o uso de herbicidas ou de gradeamentos excessivos. O Saulo ressaltou a determinação dos proprietários, que, em um contexto de monocultura de cana e queimadas, atuam como agentes transformadores da realidade e zelam pelo patrimônio histórico.

Outra visita do curso foi no assentamento Mario Lago. O engenheiro da ONF Brasil conheceu a cooperativa formada pelas famílias que plantam e vendem alimentos orgânicos. A iniciativa começou com 80 famílias em uma área de reserva legal comunitária e nas propriedades. Elas trabalham em sistema de mutirão e administram uma cooperativa, a Comuna da Terra. Atualmente essa organização está em processo de obter a certificação orgânica participativa, demonstrando que a agrofloresta pode fortalecer a economia local, garantir a autonomia para os produtores e regenerar a vegetação. Esse último benefício foi uma condição estabelecida para que as famílias pudessem ocupar o local, que é uma das maiores área de recarga do aquífero Guarani.

Saulo defende que os sistemas agroflorestais podem ser até mais eficientes do que os regimes de monocultura, pois possibilitam o cultivo de diversos produtos, otimizam o uso de recursos naturais e não agridem ou esgotam o solo ao final do ciclo produtivo. Algumas diferenças já podem ser observadas desde o início da implantação de um sistema agroflorestal, como o aumento no número de polinizadores e dispersores de sementes. A produção cria um ambiente mais favorável para essas espécies, como também melhora o microclima do sistema e favorece os serviços ecossistêmicos.

Na Fazenda São Nicolau, o engenheiro pretende replicar alguns dos conceitos aprendidos para o cultivo de hortaliças da roça dos colaboradores da ONF Brasil. Mas o objetivo principal com a experiência na Fazenda da Toca é implementar as novas técnicas para aperfeiçoar os pilotos de café na Fazenda São Nicolau e nas propriedades do PA Juruena. Após a primeira safra em 2020, será possível planejar a expansão do plantio e atingir maior escala até 2023.

[i] O grão de café agroflorestal apresenta maiores grãos e teores mais altos de açúcar devido ao aumento do período de maturação, fato que confere melhor qualidade à bebida. Além disso, as agroflorestas são sistemas mais sustentáveis que a produção orgânica convencional. Os SAFs replicam princípios de ecossistemas tropicais como sucessão ecológica, abundância e ciclagem de nutrientes. Também produzem grande parte de sua própria adubação, são eficientes em sequestro de carbono, têm capacidade de melhorar o microclima e são mais resilientes às alterações climáticas.

Terreiro suspenso aprimora etapa de pós-colheita (Foto: Saulo Thomas/ ONF Brasil)

Terreiro suspenso aprimora etapa de pós-colheita (Foto: Saulo Thomas/ ONF Brasil)

Na continuidade das atividades iniciadas pelo projeto PETRA e com o objetivo de estimular a criação de um grupo de produtores de café agroflorestal em Cotriguaçu, foi organizado, junto com o ICV (Instituto Centro de Vida), um intercâmbio entre os agricultores na propriedade do Sr. Altair, cafeicultor do PA Juruena e na Fazenda São Nicolau.

A atividade que contou com a participação de 12 agricultores apresentou o terreiro suspenso em pleno funcionamento, e os agricultores fizeram várias perguntas ao proprietário sobre custos, construção, tempo de secagem, manejo, rendimento, qualidade do produto e valor agregado.  A programação durou dois dias, de 8 a 9 de maio, e iniciou com um gostoso café da manhã na Fazenda São Nicolau. Uma das participantes, a Dona Maria do PA Nova Cotriguaçu, preparou o mingau de babaçu para fornecer a energia necessária para o grupo.

Além da Dona Maria, participaram os cafeicultores Seu Bispo e Seu Jucimar do PA Juruena (SIM), que também estiveram presentes na oficina de agosto de 2017, e produtores de Alta Floresta, PA Nova Cotriguaçu, e Nova Monte Verde. O objetivo do encontro é promover sistemas de produção econômica e ecologicamente eficientes compartilhando itinerários técnicos adaptados à região e experiências próprias dos produtores.

A visita ao terreiro suspenso construído na propriedade do Seu Altair, localizada na comunidade CDR 9 do PA Juruena, foi um ponto forte da agenda. A estrutura pretende garantir a qualidade do café na etapa pós-colheita. Porém um efeito positivo não planejado foi a possibilidade de iniciar a colheita no período chuvoso, uma vez que a cobertura fornece a proteção necessária aos grãos e permite o aceleramento do tempo de secagem. Em dias de sol, o café demora oito dias para secar completamente e, no período chuvoso, são 12 dias.

A equipe ideal para construir o terreiro é de 12 pessoas para a primeira etapa (medição, abertura dos buracos e levantamento da estrutura) e quatro pessoas para a segunda etapa (instalação da cobertura e estiramento do sombrite), demandando poucos dias para finalizar o projeto.  O Seu Altair utilizou a madeira da fazenda e precisou de mais mil reais para o restante dos materiais.  Atualmente o terreiro funciona com capacidade para 120 latas (1.440 kg) com algumas alterações no projeto inicial (a projeção era para 80 latas ou 960 kg).

O Seu Altair apresentou duas sacas diferentes para comparação. A diferença na qualidade do café é visível. O grão do terreiro suspenso é bem mais limpo e menos úmido, pois é menos atacado por fungos. Contudo a concentração de café maduro é um atrativo para a broca, principal praga do café.

A constatação da incidência de broca foi a oportunidade para instalar as armadilhas recomendadas pelo Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia). O grupo preparou e instalou 9 armadilhas, além de deixar mistura de iscas e 90 vidros para novas instalações – completando 20 armadilhas por hectare. O grupo finalizou o dia satisfeito ao constatar que, ao final das instalações das armadilhas, algumas brocas já haviam sido capturadas.