Participantes conheceram o biofiltro da água, também conhecido como círculo de bananeira, da cozinha da Fazenda (Foto: Saulo Thomas/ONF Brasil)

Participantes conheceram o biofiltro da água, também conhecido como círculo de bananeira, da cozinha da Fazenda (Foto: Saulo Thomas/ONF Brasil)

 

(mais…)

IMG_20180713_091957487_HDR[1]

Horta agroflorestal da Fazenda da Toca, no interior de São Paulo (Foto: Saulo Thomas/ ONF Brasil)

A formação de um arranjo produtivo de café agroflorestal no Noroeste de Mato Grosso é uma proposta idealizada pelo projeto PETRA e está caminhando para reunir os produtores do entorno da Fazenda São Nicolau em um esforço coletivo para a transformação das práticas agrícolas. A iniciativa pode levar à adoção mais generalizada de um sistema de produção sustentável e eficiente, em substituição à monocultura. Além de aumentar a produtividade, um dos resultados esperados do arranjo, que depende do envolvimento de mais participantes para atingir larga escala, é conseguir um prêmio de valor pela qualidade do grão de origem agroflorestal, que é melhor que orgânico[i] do ponto de vista ambiental. Na Fazenda São Nicolau, a primeira colheita dos pilotos de café agroflorestal está prevista para 2020 e os resultados fornecerão diretrizes para tornar a replicação da experiência viável, tanto para a equipe da Fazenda quanto para os agricultores do PA Juruena.

Um dos resultados esperados do arranjo, com o envolvimento de mais participantes, é de tornar o preço do grão mais competitivo e ampliar o seu potencial de comercialização. O aumento da qualidade do produto ofertado também permitirá a busca por mercados diferenciados com potencial valorização do preço de venda e contratos de compra fidelizados.

Uma oportunidade para fortalecer o arranjo local foi a participação do engenheiro florestal Saulo Thomas no curso intensivo sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs) da Fazenda da Toca, no interior de São Paulo, de 11 a 22 de julho. A Toca se destaca pelas experiências de agroflorestas em larga escala, acompanhadas de estratégias de marketing e comercialização valorizando essa modalidade de produção. A instituição já contou com a consultoria de Ernst Gotsch e Namaste  Messerschmidt, além da equipe da Preta Terra.

Durante as duas semanas de curso, o engenheiro do Programa de Integração Local da ONF Brasil teve contato com experiências bem-sucedidas de SAFs no assentamento Mario Lago, na Fazenda São Luís e na própria Fazenda da Toca.  Ao total, foram 12 dias de imersão nos quais a equipe do Toca Experiências abriu as portas da Fazenda. Na visita geral, o grupo conheceu a principal atividade produtiva atual, os ovos orgânicos, e a próxima aposta, o leite orgânico produzido em larga escala. Para Saulo, um dos momentos marcantes foi quando conheceu o Espaço Horizontes, um museu interativo (e quase uma viagem no tempo) para homenagear a história inspiradora de Abílio Diniz.

O curso apresentou experiências inovadoras, como o conceito de capitalismo social, no caso do sistema de arrendamento da área da horta, e também o processo de comercialização da Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA). Assim como na São Nicolau, a Toca tem um espaço destinado à produção de alimentos para atender a demanda do refeitório, sob responsabilidade de Maridélia Gonzaga, mestre em Agronomia.

A história de Maridélia é inspiradora, pois ela entrou na Toca pelo Programa Aprendiz e, há um ano atrás, apresentou um plano de negócios com o apoio da equipe da Toca Experiências. O resultado foi um investimento inicial da Fazenda para a estruturação da ideia e a produtora retorna esse recurso em parcelas planejadas.

Além de disponibilizar alimentos de altíssima qualidade para os colaboradores, como contrapartida, a horta agroflorestal também é sala de aula para os cursos. É uma vitrine muito didática e abundante da aplicação dos princípios naturais da biodiversidade. Rabanete, rúcula, alface, cenoura, beterraba, couve e brócolis no mesmo canteiro e organizados de maneira a ocuparem espaço e ciclo de vida diferentes. O arranjo também prevê linhas de árvores com bananeiras, espaçadas a cada 6 metros. A função é formar quebra-ventos e disponibilizar matéria orgânica pelas podas drásticas (pulsão), antes de cada renovação dos canteiros de hortaliças. Com essa prática, os canteiros necessitam cada vez menos de insumos, como a cama de frango dos aviários da Fazenda. Como a equipe obedece à risca a lição número 1, do solo sempre coberto, há a diminuição da regeneração de plantas indesejadas, como a tiririca, e se mantem a umidade do plantio.

A roça agroflorestal na Fazenda São Nicolau já tem um plantio estabelecido das linhas de árvores e bananeiras em um espaçamento semelhante. A próxima tarefa será a introdução de hortaliças entre essas linhas, tanto para potencializar a produção de alimentos para a cantina quanto para difundir a experiência com a visita dos estudantes no Programa de Educação Ambiental.

Conhecer a utilização das agroflorestas como ferramenta didática na Escola da Toca também fez parte do conteúdo programático do curso. O espaço simula uma comunidade sustentável com galinheiro, meliponário, compostagem, minhocário, biofiltro, banheiro seco de bioconstrução, cozinha, ateliê e sala de aula. A abordagem pedagógica é baseada em 3 eixos filosóficos: a natureza como mestra, a cultura da infância e o ser integral. Essas orientações resgatam a ligação dos seres humanos com a natureza. A introdução teórica desta pedagogia pode enriquecer as atividades de educação ambiental com as crianças na Fazenda São Nicolau.

O principal objetivo do Saulo, no entanto, era coletar informações para aprimorar o cluster de café agroflorestal no Noroeste de Mato Grosso. A intervenção da equipe de consultoria da Preta Terra foi fundamental, pois, durante 3 dias do curso, ela construiu um diálogo sobre os princípios e a sistematização de agroflorestas regenerativas, considerando os aspectos econômicos da prática. A partir dessa exposição, o Saulo realizou um exercício de planejamento de um SAF que servirá de base para orientar a expansão dos plantios na São Nicolau.

Na visita à Fazenda São Luís, Saulo aprendeu uma dica importante sobre a necessidade de luz no período de indução floral do café. Essa é a época ideal para realizar as podas no sistema – isto é, logo após a colheita. O engenheiro ficou admirado com os avanços das outras pesquisas práticas com agrofloresta em larga escala, tanto para formação de corredores ecológicos e quebra-ventos quanto para produção de soja e milho agroflorestais (plantados entre linhas de árvores espaçadas a 20 metros). Além dos benefícios ecológicos da inserção de árvores no sistema, o objetivo nos próximos testes é que o material triturado das podas complemente a cobertura do solo, principalmente para o controle da regeneração. A ação deve substituir o uso de herbicidas ou de gradeamentos excessivos. O Saulo ressaltou a determinação dos proprietários, que, em um contexto de monocultura de cana e queimadas, atuam como agentes transformadores da realidade e zelam pelo patrimônio histórico.

Outra visita do curso foi no assentamento Mario Lago. O engenheiro da ONF Brasil conheceu a cooperativa formada pelas famílias que plantam e vendem alimentos orgânicos. A iniciativa começou com 80 famílias em uma área de reserva legal comunitária e nas propriedades. Elas trabalham em sistema de mutirão e administram uma cooperativa, a Comuna da Terra. Atualmente essa organização está em processo de obter a certificação orgânica participativa, demonstrando que a agrofloresta pode fortalecer a economia local, garantir a autonomia para os produtores e regenerar a vegetação. Esse último benefício foi uma condição estabelecida para que as famílias pudessem ocupar o local, que é uma das maiores área de recarga do aquífero Guarani.

Saulo defende que os sistemas agroflorestais podem ser até mais eficientes do que os regimes de monocultura, pois possibilitam o cultivo de diversos produtos, otimizam o uso de recursos naturais e não agridem ou esgotam o solo ao final do ciclo produtivo. Algumas diferenças já podem ser observadas desde o início da implantação de um sistema agroflorestal, como o aumento no número de polinizadores e dispersores de sementes. A produção cria um ambiente mais favorável para essas espécies, como também melhora o microclima do sistema e favorece os serviços ecossistêmicos.

Na Fazenda São Nicolau, o engenheiro pretende replicar alguns dos conceitos aprendidos para o cultivo de hortaliças da roça dos colaboradores da ONF Brasil. Mas o objetivo principal com a experiência na Fazenda da Toca é implementar as novas técnicas para aperfeiçoar os pilotos de café na Fazenda São Nicolau e nas propriedades do PA Juruena. Após a primeira safra em 2020, será possível planejar a expansão do plantio e atingir maior escala até 2023.

[i] O grão de café agroflorestal apresenta maiores grãos e teores mais altos de açúcar devido ao aumento do período de maturação, fato que confere melhor qualidade à bebida. Além disso, as agroflorestas são sistemas mais sustentáveis que a produção orgânica convencional. Os SAFs replicam princípios de ecossistemas tropicais como sucessão ecológica, abundância e ciclagem de nutrientes. Também produzem grande parte de sua própria adubação, são eficientes em sequestro de carbono, têm capacidade de melhorar o microclima e são mais resilientes às alterações climáticas.

Terreiro suspenso aprimora etapa de pós-colheita (Foto: Saulo Thomas/ ONF Brasil)

Terreiro suspenso aprimora etapa de pós-colheita (Foto: Saulo Thomas/ ONF Brasil)

Na continuidade das atividades iniciadas pelo projeto PETRA e com o objetivo de estimular a criação de um grupo de produtores de café agroflorestal em Cotriguaçu, foi organizado, junto com o ICV (Instituto Centro de Vida), um intercâmbio entre os agricultores na propriedade do Sr. Altair, cafeicultor do PA Juruena e na Fazenda São Nicolau.

A atividade que contou com a participação de 12 agricultores apresentou o terreiro suspenso em pleno funcionamento, e os agricultores fizeram várias perguntas ao proprietário sobre custos, construção, tempo de secagem, manejo, rendimento, qualidade do produto e valor agregado.  A programação durou dois dias, de 8 a 9 de maio, e iniciou com um gostoso café da manhã na Fazenda São Nicolau. Uma das participantes, a Dona Maria do PA Nova Cotriguaçu, preparou o mingau de babaçu para fornecer a energia necessária para o grupo.

Além da Dona Maria, participaram os cafeicultores Seu Bispo e Seu Jucimar do PA Juruena (SIM), que também estiveram presentes na oficina de agosto de 2017, e produtores de Alta Floresta, PA Nova Cotriguaçu, e Nova Monte Verde. O objetivo do encontro é promover sistemas de produção econômica e ecologicamente eficientes compartilhando itinerários técnicos adaptados à região e experiências próprias dos produtores.

A visita ao terreiro suspenso construído na propriedade do Seu Altair, localizada na comunidade CDR 9 do PA Juruena, foi um ponto forte da agenda. A estrutura pretende garantir a qualidade do café na etapa pós-colheita. Porém um efeito positivo não planejado foi a possibilidade de iniciar a colheita no período chuvoso, uma vez que a cobertura fornece a proteção necessária aos grãos e permite o aceleramento do tempo de secagem. Em dias de sol, o café demora oito dias para secar completamente e, no período chuvoso, são 12 dias.

A equipe ideal para construir o terreiro é de 12 pessoas para a primeira etapa (medição, abertura dos buracos e levantamento da estrutura) e quatro pessoas para a segunda etapa (instalação da cobertura e estiramento do sombrite), demandando poucos dias para finalizar o projeto.  O Seu Altair utilizou a madeira da fazenda e precisou de mais mil reais para o restante dos materiais.  Atualmente o terreiro funciona com capacidade para 120 latas (1.440 kg) com algumas alterações no projeto inicial (a projeção era para 80 latas ou 960 kg).

O Seu Altair apresentou duas sacas diferentes para comparação. A diferença na qualidade do café é visível. O grão do terreiro suspenso é bem mais limpo e menos úmido, pois é menos atacado por fungos. Contudo a concentração de café maduro é um atrativo para a broca, principal praga do café.

A constatação da incidência de broca foi a oportunidade para instalar as armadilhas recomendadas pelo Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia). O grupo preparou e instalou 9 armadilhas, além de deixar mistura de iscas e 90 vidros para novas instalações – completando 20 armadilhas por hectare. O grupo finalizou o dia satisfeito ao constatar que, ao final das instalações das armadilhas, algumas brocas já haviam sido capturadas.